Chapter 4
“Quem ligou pra ela?” repeti, encarando minha mãe.
Ela demorou pra responder, os dedos apertando a barra do vestido.
“Foi o Grant,” ela disse por fim.
O nome caiu como um balde de água fria.
Grant.
Meu irmão mais novo.
“Impossível,” eu disse. “O Grant mal fala com a Claire desde o divórcio.”
“Exatamente por isso ele conseguiu fazer aquilo sem levantar suspeita,” minha mãe respondeu, a voz baixa. “Ele nunca teve envolvimento direto com você e Claire. Ninguém desconfiaria dele.”
Claire assentiu devagar, confirmando.
“A ligação veio de um número bloqueado,” ela disse, “mas, meses depois, reconheci a voz numa ligação em viva-voz que o seu pai fez, numa reunião de família que eu vi de longe, antes de tudo isso.”
“Por que o Grant faria isso?” perguntei, ainda tentando entender.
Minha mãe hesitou de novo, e aquela hesitação já estava começando a me deixar mais nervoso do que qualquer resposta direta.
“Porque o fundo Hale,” ela disse finalmente, “seria dividido em partes iguais entre os herdeiros reconhecidos até a data de fechamento. Você, o Grant, e sua irmã Paige.”
“E?”
“E se a Willa fosse reconhecida antes do fechamento,” ela completou, “a parte de cada um de vocês diminuiria.”
Fiquei sem palavras por um instante.
“Ele fez isso por causa de dinheiro,” eu disse, a voz quase um sussurro. “Ameaçou a mãe do meu filho, escondeu a existência dela de mim, por causa de porcentagem de herança.”
“Ele sempre se sentiu em segundo plano,” minha mãe tentou justificar. “Desde que você assumiu a presidência da empresa…”
“Isso não é desculpa,” Claire cortou, a voz firme pela primeira vez desde que entramos naquela sala. “Ele ameaçou a segurança da minha filha antes dela nascer.”
Peguei o celular e liguei pro Grant sem pensar duas vezes.
Ele atendeu no terceiro toque, a voz alegre e despreocupada do outro lado.
“Bennett! Já ouvi dizer que você deu de cara com a Claire no casamento, cara, que loucura, né?”
“Você sabia,” eu disse, sem rodeios. “Sabia da Willa esse tempo todo.”
O silêncio do outro lado durou segundos demais pra ser inocente.
“Bennett, deixa eu te explicar—”
“Você ameaçou a Claire,” continuei, a voz tremendo de raiva. “Fez ela viver com medo de perder a guarda da própria filha antes mesmo dela nascer.”
“Eu estava protegendo a estrutura financeira da família,” ele disse, a voz mudando de tom, ficando defensiva. “Você não tinha noção do que aquela criança representava pros nossos números.”
“Aquela criança,” repeti, olhando pra Willa no colo de Claire, “é minha filha.”
“E também é uma linha no balanço patrimonial do fundo,” ele respondeu, frio. “Gostando ou não.”
Desliguei sem dizer mais nada.
Fiquei parado no meio da sala, sentindo o peso de tudo aquilo se acumular nos ombros.
Minha família inteira tinha decidido, em algum momento, que minha filha valia menos do que uma porcentagem num documento.
E eu, ocupado demais construindo um império que agora parecia completamente vazio, nunca tinha percebido nada.
Olhei pra Claire.
“Eu preciso consertar isso,” eu disse. “Não só com você. Com ela.”
Claire me encarou por um longo momento, os olhos ainda marcados por meses de medo que eu nem sabia que ela tinha vivido.
“Palavras são fáceis, Bennett,” ela disse. “A pergunta é o que você está disposto a fazer agora que sabe de tudo.”
