Às 00h03, três batidas leves soaram na porta do meu quarto, dentro de uma propriedade vigiada como uma fortaleza.

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Chapter 1

Às 00h03, três batidas leves soaram na porta do meu quarto, dentro de uma propriedade vigiada como uma fortaleza. No meu mundo, visitas de madrugada geralmente significavam traição, sangue ou morte. Mas quando abri a porta, encontrei uma menina de três anos, descalça, agarrada a um coelho de pelúcia surrado.

Ela ergueu os olhos para mim e sussurrou:

— Senhor Adrian… o homem mau nos encontrou.

Meu nome é Adrian Moretti. Aos trinta e nove anos, construí uma reputação na zona portuária de Chicago que fazia homens adultos baixarem a voz quando eu entrava numa sala. Ainda assim, a pequena Lily Bennett estava parada na minha porta, tremendo, e se recusava a sair dali.

— Preciso da sua ajuda — ela sussurrou de novo.

A camisola florida estava torta em torno dos joelhos dela, e lágrimas secas marcavam seu rosto por baixo do cabelo emaranhado. Olhei para baixo e perguntei:

— Lily, como você subiu até aqui?

— A mamãe não acorda.

Qualquer outra pergunta desapareceu da minha cabeça.

— Onde ela está?

Lily hesitou, esticando o pescoço para olhar para o meu um metro e noventa de altura.

— Você é muito alto. Não consigo falar com você lá de cima.

Então fiz algo que os homens que temiam meu nome jamais acreditariam.

Ajoelhei no chão de mármore.

— Assim está melhor?

Ela balançou a cabeça e apertou o coelho contra o peito. Contou que a mãe tinha chegado em casa reclamando de dor de cabeça, e que, mais tarde, ela ouviu um barulho de coisa caindo e encontrou a mãe estendida no chão.

— Eu sacudi ela — Lily sussurrou. — Chamei “mamãe” várias vezes. Ela fez um barulho estranho, mas não abriu os olhos.

Um medo apertou meu peito, e comecei a me levantar. Foi então que Lily agarrou dois dos meus dedos com as duas mãozinhas.

— Espera. Tem mais uma coisa.

Seus olhos se voltaram para o corredor escuro atrás dela.

— O homem mau nos encontrou.

Meu corpo inteiro congelou.

— Que homem mau?

— Aquele que a mamãe disse pra eu nunca ir com ele.

— Qual é o nome dele?

— Não posso falar.

— Hoje você pode.

Lily se inclinou para perto de mim, como se nem as paredes fossem confiáveis.

— Victor Kane.

Por meio segundo, esqueci como respirar. Três dias antes, Victor Kane tinha sentado bem na minha frente, numa sala de reunião no centro de Chicago, e mentido descaradamente para mim.

— Me leva até sua mãe.

Lily me guiou pela ala leste silenciosa, em direção aos apartamentos dos funcionários. Minha propriedade ocupava quase vinte hectares ao norte de Chicago, protegida por portões de ferro, câmeras, sensores de movimento e segurança armada. Depois das dez da noite, ninguém entrava na minha ala privada — a menos que a casa estivesse pegando fogo ou alguém estivesse morrendo.

Aparentemente, Lily se enquadrava nessa exceção.

— Você veio até aqui sozinha? — perguntei.

— Bati em outra porta primeiro.

— Ninguém atendeu?

Ela balançou a cabeça, negando.

— Como você sabia onde ficava o meu quarto?

— Eu não sabia.

Alguma coisa naquela resposta me incomodou.

— Você simplesmente escolheu a minha porta?

Ela pensou a respeito com aquela seriedade estranha que só uma criança assustada consegue ter.

— Pareceu a porta certa.

Claire Bennett estava desacordada ao lado da cômoda quando entramos no pequeno apartamento dela. Vinte e sete anos, trabalhava como uma das minhas empregadas havia oito meses, e até aquele momento tudo o que eu sabia sobre ela era que era pontual, quieta, quase invisível.

De repente, isso pareceu pouquíssimo.

Ajoelhei ao lado dela e chequei o pulso. Estava acelerado, e a pele dela estava fria e úmida sob meus dedos.

— Claire.

Nada.

Peguei o celular na hora.

— Chamem o Dr. Michael Grant. Agora.

— Sim, senhor.

— E o Daniel?

— Senhor?

— Tranquem os portões. Ninguém sai.

Meus olhos se voltaram para Lily.

— Ninguém entra também.

Dezessete minutos depois, Michael estava ajoelhado ao lado de Claire, verificando as pupilas, a pressão, a respiração, antes de começar um soro na veia. Lily observava tudo de perto, agarrada àquele coelho gasto como se fosse a única coisa segura que restava no mundo dela.

— O senhor Adrian disse que a mamãe vai acordar — ela contou ao médico.

Michael olhou para mim, e eu sustentei o olhar sem piscar.

— Então — ele disse por fim — posso dizer que ela tem duas pessoas garantindo isso.

Aos poucos, a cor voltou ao rosto de Claire. Mas quando Michael me puxou para o corredor, a expressão dele deixou claro que aquilo estava longe de terminar.

— Exaustão, desidratação, pressão baixa — ele disse baixinho. — Ela está no limite há muito tempo.

— Mais alguma coisa?

Ele hesitou.

Meu estômago se apertou na hora.

— O quê?

— Tem algo no organismo dela.

— Que tipo de algo?

— Um sedativo. Leve, mas no estado dela, ela não deveria ter tomado isso.

— Era receitado?

— Não encontrei nenhum frasco.

— Ela pode ter tomado sozinha?

— É possível.

Encarei ele.

— Você não acredita nisso.

Michael olhou pela porta na direção de Claire, depois voltou o olhar para mim.

— Não.

Todo instinto que me manteve vivo durante vinte anos disparou ao mesmo tempo, porque em algum lugar dentro da minha propriedade trancada havia uma criança apavorada, uma mulher desacordada com uma droga inexplicável no sangue, e a sombra de um homem que jamais deveria ter conseguido chegar perto de nenhuma das duas.

— Por quê?

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