Chapter 3
Fiquei olhando para Damien ajoelhado ali, na altura dos meus filhos, sentindo uma mistura confusa de raiva antiga e algo que eu não esperava mais sentir: uma pequena fresta de esperança que eu tinha certeza de ter fechado para sempre cinco anos atrás.
— Isso não muda nada — falei, mais para mim mesma do que para ele. — Palavras bonitas não devolvem o tempo que a gente perdeu.
— Eu sei — Damien respondeu, se levantando devagar. — Mas eu preciso de uma chance para tentar, Mara. Não pelo meu bem. Pelo deles.
Vivian, ainda tentando recuperar algum controle da situação, deu um passo à frente.
— Talvez devêssemos resolver isso com calma, num ambiente mais apropriado. Advogados podem…
— Não — Damien a interrompeu, virando-se para ela com uma expressão que eu nunca tinha visto antes. — Chega de advogados, mãe. Chega de arquivos trancados e cheques assinados nas minhas costas.
— Damien, você não entende a posição em que…
— Eu entendo perfeitamente — ele cortou, a voz agora dura como pedra. — Você escolheu uma campanha eleitoral no lugar dos seus próprios netos. Durante cinco anos.
Vivian recuou, atingida pela primeira vez pela força da própria consequência.
— Seu pai nem sabe de nada disso, sabe? — Damien continuou, e um novo horror cruzou o rosto dele. — Ele sabe que esses meninos existem?
O silêncio de Vivian foi resposta suficiente.
— Meu Deus — Damien sussurrou. — Você escondeu isso até dele.
— Seu pai teria insistido em assumir tudo publicamente, mesmo no meio da campanha — Vivian finalmente admitiu, a voz falhando. — Ele nunca teve estômago para esse tipo de decisão difícil.
— Decisão difícil — repeti, sentindo a fúria queimar de novo. — Você chama esconder os próprios netos de “decisão difícil”?
Um homem mais velho, terno impecável, surgiu correndo pelo corredor do shopping, claramente alertado por alguém da comitiva de segurança de Vivian que sempre parecia rondar por perto.
Robert Mercer.
O pai de Damien.
Ele parou, ofegante, os olhos passeando entre a esposa, o filho, e finalmente pousando nos meninos.
— Vivian — disse, a voz baixa e perigosamente calma. — Por favor, me diga que eu não estou vendo o que acho que estou vendo.
Ela não respondeu.
Robert se aproximou de Ethan e Noah devagar, os olhos marejados, reconhecendo neles o mesmo rosto que ele via no espelho todos os dias há décadas, apenas numa versão em miniatura.
— Eles têm o queixo do meu pai — ele murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa ali.
— Você sabia? — Damien perguntou ao pai, a voz tensa, temendo mais uma traição.
— Não — Robert respondeu rápido, olhando diretamente para Vivian. — Eu juro por Deus que não sabia de nada disso.
O alívio que atravessou o rosto de Damien foi imediato, mas curto, substituído rapidamente pela raiva renovada direcionada só à mãe agora.
— Como você pôde fazer isso sozinha? — Damien perguntou. — Esconder até do seu próprio marido?
— Porque eu sabia que ele reagiria exatamente assim — Vivian respondeu, finalmente sem forças para manter a fachada. — Ele teria jogado tudo fora. A campanha, a reputação da família, tudo, só para fazer “a coisa certa”.
— E fazer a coisa certa seria tão terrível assim? — Robert perguntou, a voz carregada de uma dor que parecia genuína.
Vivian não respondeu, apenas olhou para o chão, como se só agora, cercada por todos, começasse a compreender o tamanho real do que tinha feito.
Aproximei-me de Robert, ainda cautelosa, mas sentindo que, ao menos ali, havia alguém genuinamente chocado com tudo aquilo.
— Seu neto se chama Ethan — falei, apontando gentilmente. — E esse é o Noah.
Robert se ajoelhou, com o cuidado de quem lida com algo extremamente precioso e frágil.
— Oi, meninos — disse, a voz tremendo de emoção. — Eu sou… bem, acho que sou o avô de vocês.
Ethan olhou para mim, cauteloso.
— Mãe, é verdade?
Assenti, sentindo lágrimas escaparem, incapaz de segurar a onda de emoções que aquele dia inteiro tinha desencadeado.
— É verdade, filho.
Noah, sempre mais observador, olhou para Vivian com uma desconfiança que parecia impressionantemente madura para uma criança de cinco anos.
— Ela não parece feliz com a gente aqui — ele disse baixinho.
O comentário atingiu Vivian como um tapa, e pela primeira vez, ela pareceu genuinamente sem palavras.
Robert se levantou, encarando a esposa com uma frieza que eu nunca imaginaria ver entre eles.
— Vamos conversar em casa, Vivian. Sobre a campanha, sobre esse casamento, sobre tudo que você decidiu esconder de mim nos últimos cinco anos.
— Robert, por favor, pense na família…
— Eu estou pensando na família — ele respondeu, a voz firme como eu nunca tinha ouvido antes. — Pela primeira vez em muito tempo, estou pensando na família inteira. Incluindo os dois meninos que você tentou apagar da nossa história.
Damien olhou para mim, um pedido silencioso e desesperado nos olhos.
— Mara, por favor. Me dê uma chance de fazer isso direito. Não amanhã. Não a partir de agora, com condições e advogados. Deixa eu simplesmente… começar a ser pai deles, do jeito certo, a partir de hoje.
Olhei para meus filhos, que observavam aquele estranho com uma mistura de curiosidade e cautela, e senti o peso de uma decisão que não era só minha para tomar sozinha.
— Isso não vai ser fácil, Damien.
— Eu sei — ele respondeu, sem hesitar. — Mas eu quero tentar. Se você me deixar.
