Dois anos depois de uma bala de franco-atirador destruir minhas pernas, todo mundo dentro da minha propriedade em

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Chapter 2

Fiquei ali, paralisado, olhando para a mulher deitada ao meu lado na escuridão.

Não era uma ameaça. Era Emma, encolhida em posição fetal, a testa coberta de suor, tremendo como se estivesse com frio numa noite quente de verão.

“Emma?”

Ela não respondeu. Sua respiração vinha curta, entrecortada.

Acendi a luz do abajur e o que vi me gelou mais do que qualquer dor fantasma jamais tinha conseguido.

Seus lábios estavam pálidos, quase azulados. Uma fina camada de suor cobria seu rosto, e as mãos dela se agarravam ao lençol como se aquilo fosse a única coisa que a mantinha presa à consciência.

“Luke!” gritei, mais alto do que gritava havia meses. “LUKE!”

Ele apareceu em segundos, arma já na mão por instinto, e parou seco ao ver a cena.

“Chama o Doutor Bennett. Agora.”

Luke não fez perguntas. Só correu.

Enquanto esperávamos, tentei entender como Emma tinha ido parar ali, na minha cama, àquela hora da madrugada.

Mais tarde eu soube, através da governanta, que ela tinha desmaiado no corredor durante a ronda de limpeza e, tonta, tinha se arrastado até o quarto mais próximo — o meu — antes de perder as forças completamente.

O Doutor Bennett chegou em vinte minutos, seu maletim balançando enquanto subia as escadas correndo.

Ele examinou Emma com cuidado, checando pulso, pressão, pupilas, enquanto ela lutava para manter os olhos abertos.

“Ela precisa ir pro hospital,” ele disse, sério. “Os sinais vitais estão instáveis.”

“Não,” Emma sussurrou, os olhos se abrindo de repente. “Sem hospital. Eu não posso pagar isso.”

“Você quase desmaiou de vez,” retrucou o médico. “Isso não é coisa pra ignorar.”

Emma tentou se sentar, mas o corpo cedeu de novo.

“Eu tenho que trabalhar amanhã,” ela murmurou, a voz fraca. “Se eu não for, perco o turno. E se eu perder o turno…”

Ela não terminou a frase, mas eu já tinha entendido bem demais.

“Ela fica,” eu disse, surpreendendo até a mim mesmo. “Aqui. Sob meus cuidados. Doutor Bennett, o senhor vem todo dia até ela melhorar.”

Luke me olhou como se eu tivesse enlouquecido de vez.

“Danny, você mal aguenta um fisioterapeuta por perto. Agora quer manter a faxineira presa dentro de casa?”

“Ela não vai embora doente pra pegar dois ônibus até em casa,” respondi, sem espaço para discussão na voz. “Ponto final.”

O Doutor Bennett aplicou um soro, ajustou a medicação, e ficou observando Emma por horas, até a respiração dela se estabilizar e o rosto recuperar um pouco de cor.

Fiquei sentado na minha cadeira de rodas ao lado da cama, sem conseguir dormir, observando aquela mulher que, semanas atrás, era só mais uma funcionária invisível na minha casa.

Pela manhã, quando ela finalmente abriu os olhos por completo, encontrou meu olhar fixo nela.

“Por que você fez isso?” ela perguntou, a voz ainda fraca. “Podia ter me mandado pra rua.”

“Porque eu preciso saber o que diabos está acontecendo com você,” respondi. “E dessa vez, você não vai fugir da pergunta como sempre faz.”

Emma desviou o olhar para a janela, o silêncio se estendendo entre nós por um tempo longo demais.

“É complicado,” ela finalmente disse.

“Eu tenho tempo,” retruquei. “Aliás, é praticamente a única coisa que me sobrou.”

Ela fechou os olhos de novo, não de cansaço dessa vez, mas como quem reúne coragem para dizer algo que vinha escondendo há tempo demais.

“Meus rins estão falhando, Daniel. Há mais de um ano.”

As palavras caíram sobre mim como um peso que eu não esperava.

E, pela primeira vez desde o dia em que a bala destruiu minhas pernas, percebi que existia alguém mais perto de mim carregando uma dor que eu nem imaginava.

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