Dois anos depois de uma bala de franco-atirador destruir minhas pernas, todo mundo dentro da minha propriedade em

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Chapter 3

Fiquei em silêncio por um longo momento, tentando processar o que Emma acabara de dizer.

“Falhando como? Você está fazendo algum tratamento?”

Ela balançou a cabeça devagar, os olhos ainda fechados.

“Diálise, três vezes por semana. Antes do meu turno na lanchonete, antes de vir pra cá.”

“Você trabalha dois empregos e ainda faz diálise três vezes na semana?”

“Preciso pagar as contas da minha mãe na instituição,” ela disse, a voz embargada. “E o resto da diálise que o seguro não cobre.”

Senti algo se apertar no peito que não tinha nada a ver com dor fantasma.

“Por que você nunca disse nada? Por que continuou trabalhando desse jeito, se arriscando?”

Emma abriu os olhos e me encarou, cansada mas firme.

“Porque pena não paga aluguel, Daniel. E eu não vim aqui pra ser vista como coitada. Vim trabalhar.”

Aquelas palavras me atingiram com mais força do que qualquer bala.

Passei o resto da manhã em silêncio, revisando mentalmente cada gesto dela nas últimas semanas — os tremores, os tropeços, as vezes em que se apoiava na parede quando achava que ninguém via.

Tudo fazia sentido agora.

Chamei o Doutor Bennett para uma conversa reservada no corredor.

“Ela precisa de um transplante, não é?”

Ele assentiu, sério.

“Na lista de espera há oito meses. Com a condição financeira dela, as chances de conseguir prioridade são baixas.”

“Quanto custaria colocar ela numa clínica particular, com acompanhamento completo, até sair um doador compatível?”

O Doutor Bennett me olhou surpreso.

“Danny, isso custaria uma fortuna.”

“Eu tenho fortuna,” respondi secamente. “O que eu não tenho é motivo pra gastar ela em mais uma noite bebendo sozinho nesse escritório.”

Enquanto organizava os detalhes com o médico, Luke entrou, o rosto tenso, segurando um envelope pardo.

“Danny, isso chegou hoje de manhã. Endereçado a você. Sem remetente.”

Abri o envelope com cuidado. Dentro, uma única fotografia — eu, no dia do tiroteio, momentos antes de a bala atingir minhas pernas, tirada de um ângulo que só alguém muito próximo poderia ter capturado.

No verso, escrito à mão: “Você devia ter morrido naquele dia. Da próxima vez, eu termino o serviço.”

O sangue gelou nas minhas veias.

“Quem mais sabia sobre essa foto? Sobre esse ângulo específico?” perguntei a Luke, a voz baixa e perigosa.

Ele engoliu em seco.

“Só as pessoas que estavam na sala de segurança naquele dia. E isso inclui… gente da nossa própria equipe.”

O peso daquela frase se instalou entre nós dois.

Alguém dentro da minha própria casa, alguém em quem eu confiava, podia estar ligado ao ataque que me tirou as pernas.

E agora, além de cuidar de Emma, eu precisava descobrir quem, entre os meus, ainda queria me ver morto.

Olhei para o corredor, para o quarto onde Emma dormia, recuperando forças, sem imaginar que sua chegada àquela casa tinha, sem querer, destravado duas guerras ao mesmo tempo: uma pela vida dela, e outra pela minha.

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