Chapter 2
Andrew estendeu o envelope pra mim com a mão que não segurava a muleta, os dedos tremendo levemente.
“Achei isso na bolsa dela ontem à noite, procurando o celular pra chamar uma ambulância depois da queda”, ele disse. “Assim que vi o nome da sua empresa, eu soube que precisava te mostrar.”
Brenda deu um passo à frente, tentando alcançar o envelope. “Andrew, isso não tem nada a ver com—”
“Fica quieta”, ele cortou, com uma dureza que eu nunca tinha ouvido antes num homem tão discreto quanto ele parecia ser nas poucas vezes em que cruzamos caminho em eventos da empresa.
Abri o envelope ali mesmo, no corredor do hospital, as mãos surpreendentemente firmes.
Dentro, havia uma pilha de extratos bancários de uma conta que eu nunca tinha visto — não a conta principal da Crestview Developments, nem nenhuma das contas pessoais que eu administrava havia vinte e oito anos.
Uma conta em nome de “Crestview Consulting Group LLC”.
Percorri os extratos rapidamente. Transferências mensais, sempre no mesmo valor, sempre na mesma data — o dia 5 de cada mês — saindo da conta principal da empresa direto pra essa conta desconhecida.
Doze mil dólares por mês.
Há três anos.
Fiz a conta de cabeça, sentindo o estômago revirar. Quatrocentos e trinta e dois mil dólares.
“Isso é dinheiro da nossa empresa”, eu disse, mais pra mim mesma do que pra qualquer outra pessoa.
“Da empresa dele”, Brenda corrigiu, um resquício de arrogância ainda tentando se segurar mesmo ali, encurralada. “Ele pode fazer o que quiser com o próprio dinheiro.”
“É metade minha, Brenda. E do meu pai, que investiu as economias da vida inteira dele pra essa empresa existir.”
Andrew pigarreou, desconfortável. “Tem mais uma coisa. Ela tem acesso a essa conta também. É conta conjunta.”
Meu olhar se voltou pra Brenda, que finalmente parou de fingir indignação e ficou em silêncio.
“Você sabia”, eu disse, devagar, juntando as peças. “Não é só um caso, é isso? Vocês estavam desviando dinheiro juntos.”
“Não é o que parece”, ela murmurou, a voz perdendo toda a força de antes.
“Então me explica o que parece, Brenda. Porque, do jeito que eu estou vendo, meu marido está tirando dinheiro da empresa que eu ajudei a construir do zero, e colocando numa conta que a secretária dele também controla.”
Andrew balançou a cabeça, exausto. “Eu perguntei a ela sobre essa conta ontem à noite. Foi aí que a briga começou. Ela disse que era ‘dinheiro de investimento’, que eu não entenderia.”
“E você acredita nisso?”, perguntei.
“Eu acreditava, até ontem.” Ele olhou pra Brenda com uma tristeza que parecia mais pesada do que raiva. “Vinte anos de casamento, Sra. Laura. Eu também estou tentando entender o que sobrou disso.”
Guardei os extratos de volta no envelope, as mãos ainda firmes, mas a cabeça já correndo cem passos à frente.
“Preciso desses documentos”, eu disse a Andrew.
“São seus. Eu não quero mais nada que tenha o nome dela nessa história.” Ele olhou pra Brenda uma última vez. “Nem o nome dela mesma, se for possível.”
Saí do hospital com o envelope apertado contra o peito, o coração batendo num ritmo que eu não sentia havia anos — não de dor, mas de uma clareza fria e afiada que eu nunca tinha permitido a mim mesma sentir em vinte e oito anos de casamento.
Liguei pro meu advogado antes mesmo de entrar no carro.
“Vic, preciso que você olhe uma coisa pra mim. Hoje, se possível.”
“O que aconteceu, Laura?”
“Acho que meu marido andou desviando dinheiro da nossa própria empresa há três anos. E acho que ele não fazia ideia de que eu ia descobrir tudo dessa forma.”
Do outro lado da linha, Vic ficou em silêncio por um segundo. “Traga tudo o que você tiver. Vamos analisar cada centavo.”
Quando cheguei em casa, Mark estava sentado na sala, ainda com o mesmo semblante pálido de “enxaqueca” da manhã anterior, como se nada tivesse mudado no mundo dele.
Ele nem imaginava que já tinha mudado tudo.
