Chapter 3
“Onde você estava?”, Mark perguntou, sem levantar os olhos do celular, o tom entediado de sempre.
“No hospital.” Eu me sentei na poltrona em frente a ele, o envelope escondido dentro da minha bolsa. “Visitando um paciente interessante.”
Alguma coisa no meu tom fez ele finalmente erguer os olhos.
“Que paciente?”
“O marido da Brenda. Andrew. Ele quebrou o tornozelo ontem à noite, numa briga bem feia com a esposa. Você sabia disso?”
O rosto de Mark perdeu a cor gradualmente, do jeito que gelo derrete devagar antes de virar água.
“Laura, eu posso explicar—”
“Pode explicar a Brenda, ou pode explicar os quatrocentos e trinta e dois mil dólares que saíram da nossa empresa nos últimos três anos, pra uma conta em nome da ‘Crestview Consulting Group’?”
O silêncio que se seguiu foi tudo que eu precisava pra ter certeza absoluta.
“Você não entende como isso funciona”, ele começou, a voz ganhando aquele tom condescendente que ele tinha adotado no último ano. “É uma estrutura de consultoria legítima, pra questões fiscais. Meu contador—”
“Não tem contador nenhum registrado com esse nome, Mark. Eu já liguei pro Vic. Essa empresa não presta serviço nenhum pra ninguém. Existe só pra receber transferências mensais.”
Ele se levantou, começando a andar de um lado pro outro da sala, o pânico finalmente rachando a máscara de indiferença que ele vinha usando comigo há meses.
“Tudo bem, tudo bem. Eu estava guardando dinheiro. Pra investir num projeto novo, sem precisar dividir a decisão com você e com o seu pai toda vez.”
“Sem precisar dividir com a gente. Você quer dizer roubando de mim e do meu pai.”
“Não é roubo se eu ainda tenho intenção de devolver!”
“Você tem uma conta conjunta com a sua secretária, Mark. Isso não parece intenção de devolver nada. Parece intenção de construir uma vida nova, financiada pela empresa que eu ajudei a construir do chão.”
Foi nesse momento que Ofelia, minha sogra, apareceu na porta da sala, tinha claramente ouvido parte da conversa.
“Laura, não precisa fazer essa cena toda”, ela disse, com aquele tom de superioridade que ela cultivava desde que se mudou pra nossa casa. “Meu filho trabalha duro. Se ele quer guardar um dinheiro extra pro futuro dele, isso é problema dele.”
“É dinheiro da empresa, Ofelia. Metade minha, metade do meu pai.”
“Ah, sempre o seu pai.” Ela revirou os olhos. “Manuel já teve o retorno dele há anos, Laura. Não precisa ficar agarrada a isso como se ainda fosse relevante.”
Alguma coisa na forma como ela disse aquilo — tão específica, tão certa de si — me fez parar.
“Como assim, ‘já teve o retorno dele’?”
Ofelia percebeu o próprio erro tarde demais, e o silêncio dela disse mais do que qualquer resposta.
“Mark”, eu disse, devagar, sentindo uma nova onda de frieza tomar conta de mim. “O que a sua mãe está dizendo?”
Ele evitou meu olhar por um longo momento antes de finalmente responder.
“Tem mais uma coisa que eu preciso te contar sobre a participação do seu pai na empresa.”
Meu coração gelou de um jeito totalmente diferente daquele da manhã anterior, quando encontrei a calcinha no carro.
Aquilo tinha sido traição pessoal.
Isso, eu sentia, estava prestes a ser algo muito maior.
