Na minha primeira refeição com a família do meu marido, depois de cozinhar para quase 40 pessoas desde as cinco da manhã

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Chapter 4

Três dias depois, Renata me ligou com uma notícia.

“O banco aceitou a contestação. Como a procuração não previa abertura de crédito, eles vão cancelar o contrato e reverter a cobrança. Você não vai pagar nada.”

Respirei fundo pela primeira vez em dias.

“E o dinheiro que já foi transferido pro restaurante?”

“Isso agora é problema deles. O banco vai cobrar de quem recebeu, não de você. E com o boletim de ocorrência, se eles não devolverem, pode virar processo criminal contra o Caleb e a Brenda.”

Foi nesse momento que Caleb apareceu na portaria do meu prédio.

O porteiro me ligou perguntando se eu autorizava a entrada.

“Só na portaria,” respondi. “Não sobe.”

Desci e o encontrei do lado de fora, parecendo não ter dormido havia dias.

“O banco cancelou o empréstimo,” ele disse, a voz quebrada. “Minha mãe vai perder o restaurante.”

“E daí?”

“Como assim ‘e daí’? Você não sente nada?”

“Eu senti muita coisa, Caleb. Senti quando fui obrigada a comer na cozinha depois de cozinhar sozinha pra quarenta pessoas. Senti quando descobri que meu nome estava numa dívida de cento e oitenta mil reais que eu nunca autorizei. Agora eu não sinto mais nada em relação a vocês. Só clareza.”

Ele deu um passo à frente.

“Eu te amo. Isso saiu do controle, eu admito, mas foi porque minha mãe estava desesperada. Eu não queria te machucar.”

“Você não queria que eu descobrisse. É diferente.”

Foi então que Brenda saiu do carro estacionado do outro lado da rua. Ela deve ter vindo junto e ficado esperando.

“Você vai deixar meu filho implorando na rua desse jeito?” ela gritou, se aproximando. “Depois de tudo que fizemos por ele?”

“O que a senhora fez foi usar o casamento dele pra ter acesso ao meu nome e à minha conta bancária.”

“Isso é mentira!”

“Não é, Brenda. E a senhora sabe disso.”

O silêncio que se seguiu foi diferente dos outros. Mais pesado. Caleb olhou para a mãe, como se esperasse que ela negasse de novo.

Ela não negou.

“Eu não tinha escolha,” Brenda finalmente disse, a voz baixa. “O restaurante ia fechar em dois meses. Você tinha o apartamento, tinha reserva, tinha crédito limpo. Eu só pedi pro Caleb resolver isso.”

Caleb olhou para a mãe como se a visse pela primeira vez.

“Mãe… você me disse que era um empréstimo normal, que ela sabia.”

“Eu fiz o que precisava ser feito pela nossa família,” Brenda respondeu, sem um pingo de arrependimento.

Naquele momento, vi no rosto de Caleb algo que eu nunca tinha visto antes: dúvida sobre a própria mãe.

Mas não me importei mais com aquilo.

“Isso não é mais problema meu,” eu disse. “A partir de hoje, qualquer contato de vocês vai passar pela minha advogada. Vou dar entrada no divórcio essa semana.”

“Divórcio?” Caleb repetiu, como se a palavra o atingisse fisicamente.

“Você achou que depois de tudo isso eu ainda ia continuar casada com você?”

Ele não respondeu.

Entrei no prédio e não olhei para trás, mesmo ouvindo Brenda gritar meu nome atrás de mim.

O porteiro fechou o portão automático assim que passei.

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