Chapter 1
Voltar pra casa três dias antes deveria ter me dado vantagem sobre o traidor dentro da minha organização. Em vez disso, entrei na minha própria mansão fortificada em Chicago, ouvi minha filha de dezessete anos gritando atrás de uma porta trancada na cozinha, e encontrei a empregada quieta que eu mal notava tirando estilhaços de metal da perna sangrando dela, enquanto minha filha mais nova — muda havia três anos — sussurrava: “A Claire tá consertando.”
Eu devia estar em Miami até sexta.
A reunião tinha desmoronado antes da sobremesa, deixando dois braços-direitos mortos, um galpão em chamas, e provas suficientes pra me dizer que alguém dentro da minha própria organização tinha me traído.
Quando entrei na Ashford House, sangue seco manchava meu punho de camisa e meus nós dos dedos estavam rachados.
Tudo que eu queria eram dez minutos sozinho antes de decidir quem ainda estaria vivo pela manhã.
Foi então que Ava gritou.
O som veio da ala leste, curto e sufocado, como se alguém tivesse tentado calar ela.
Minha mão foi direto pra pistola debaixo do casaco.
Ninguém entrava na minha casa sem eu saber.
Seguranças armados cobriam cada entrada. Câmeras vigiavam corredores, elevadores, jardins, garagem e o andar particular da família.
Ninguém encostava nas minhas filhas.
Então ouvi uma voz de mulher.
— Harper, segura a lanterna firme. Não olha pro sangue. Olha pras minhas mãos.
Uma criança soluçou.
— Ava, escuta. Você tá machucada, mas não vai morrer no meu plantão.
Meu sangue gelou.
Andei pelo corredor sem fazer barulho e chutei as portas da cozinha com a pistola erguida.
— Todo mundo parado.
Três meninas gritaram.
Não havia homens armados.
Nenhum invasor mascarado.
Só sangue.
Ava estava sentada na bancada de mármore, o jeans cortado do quadril até o joelho, um ferimento profundo cruzando a coxa dela. Harper estava ao lado, tremendo tanto que o facho da lanterna balançava na bancada.
Aí eu vi a Emma.
Minha filha de seis anos não falava por vontade própria desde que o carro-bomba matou a mãe dela, três anos atrás.
Agora ela estava descalça em cima de um banquinho, agarrada na saia da empregada.
— Respira, Ava — Emma sussurrou. — A Claire tá consertando.
Minha arma abaixou.
Claire Whitman estava no meio da cozinha coberta de sangue, as mangas dobradas acima dos cotovelos.
A empregada quieta.
A mulher que eu tinha contratado seis semanas antes porque a agência a descreveu como discreta, gentil, boa com crianças.
Eu mal tinha reparado em mais nada além da voz suave dela e do hábito de baixar os olhos perto de homens armados.
Aquela mulher tinha sumido.
Luvas médicas azuis cobriam as mãos dela. Uma agulha cirúrgica curva descansava entre os dedos, enquanto uma pinça desaparecia fundo dentro do ferimento da minha filha.
E os braços expostos dela estavam cobertos de cicatrizes.
Queimaduras.
Uma linha pálida atravessando um dos pulsos.
E uma marca enrugada perto do cotovelo que parecia, de forma perturbadora, uma antiga ferida de bala.
Dei um passo mais perto.
Claire olhou direto pra mim.
Sem medo.
Sem hesitação.
— Guarda a arma, Sr. Vale — ela disse, calma. — Você tá assustando as crianças.
Ninguém falava comigo desse jeito.
Meu maxilar travou.
— O que aconteceu com minha filha?
Os olhos de Claire desviaram rápido pra porta da cozinha.
Depois ela ergueu devagar a pinça.
Presa nela, uma bala pequena e deformada.
Meu estômago revirou.
— Essa — ela disse — veio de um dos seus próprios homens.
E, em algum lugar atrás de mim, ouvi o clique inconfundível de uma arma sendo engatilhada.
