Chapter 1
O convite de casamento preto ainda estava em cima da minha mesa de cozinha quando alguém bateu na porta do meu apartamento com força suficiente para rachar o batente. Três dias antes de o chefe do crime mais temido de Manhattan se casar com outra mulher, eu tinha desaparecido com a sobrinha dele, uma menina de dez anos apavorada — e agora Dante Moretti tinha vindo buscá-la de volta.
Sophia estava encolhida contra os travesseiros do meu quarto, agarrada a um pequeno gravador de voz prateado contra o peito. O cabelo escuro e emaranhado emoldurava um rosto pálido de medo enquanto mais uma pancada sacudia as paredes.
— Elena — ela sussurrou. — Por favor, não deixa ele me mandar de volta.
Fiquei entre ela e o corredor, mesmo com as mãos tremendo. Por dois anos, eu tinha cuidado das agendas, dos remédios, dos inimigos e dos segredos de Dante, então eu sabia exatamente o que acontecia com quem tentava tirar dele algo que ele considerava seu.
Uma voz calma atravessou a porta danificada.
— Elena.
Dante nunca precisava gritar. Homens poderosos pediam desculpas quando ele usava aquele tom, e soldados armados baixavam os olhos antes mesmo de ele terminar de falar.
A fechadura se estilhaçou.
Quatro homens de terno escuro entraram primeiro, as mãos dentro dos casacos. Dante entrou logo atrás, num terno cinza-chumbo e sobretudo preto, o rosto sem sono duro o suficiente para fazer o apartamento inteiro parecer menor.
— Onde ela está? — ele perguntou.
Bloqueei a porta do quarto.
— Você invadiu minha casa com homens armados, e tem uma criança apavorada atrás de mim. Você não tem o direito de exigir nada.
O olhar dele passou pela mala arrumada, pelos documentos legais, pelas duas xícaras de chá intocadas. Depois ele reparou nas marcas roxas ao redor do meu pulso.
— Quem fez isso?
— Sua noiva mandou a segurança me tirar do seu escritório — respondi. — Seus homens seguiram as ordens dela.
Algo perigoso mudou no olhar dele.
Antes que pudesse responder, Sophia apareceu no corredor. Ela parecia dolorosamente pequena dentro do meu moletom largo, e quando estremeceu ao vê-lo, Dante parou de se mexer.
— Por que você fugiu? — ele perguntou a ela.
— A Bianca disse que você não ia mais me querer depois do casamento.
Um silêncio engoliu o cômodo inteiro.
Sophia ergueu o gravador.
— Eu ouvi ela falando com o pai dela. Eles vão me mandar pra uma escola em outro estado até terminarem os papéis que dão pra eles tudo que o papai deixou pra mim.
Dante tirou o celular do bolso e ligou para Bianca.
— Querido — ela atendeu, animada. — O ensaio na catedral começa daqui a uma hora.
— Não vai ter ensaio nenhum.
A voz dela ficou afiada.
— O que você está dizendo?
— O casamento está cancelado. A aliança da sua família com a minha acabou, e toda conta ligada ao fundo da Sophia vai ser congelada dentro de uma hora.
— Você não pode destruir tudo por causa de uma assistente!
Dante olhou para o meu pulso machucado, depois para Sophia.
— Não estou fazendo isso por causa da minha assistente — ele disse, frio. — Estou fazendo isso porque você ameaçou minha filha.
Ele desligou o telefone e se virou para mim.
— Arrumem as malas. As duas vêm comigo para casa.
— Não.
A mandíbula dele se travou.
— Sua mansão pode ter portões de aço e guardas armados — falei — mas a Sophia parou de comer lá dentro. Ela dormia com a luz acesa todas as noites, e ninguém nunca perguntou o motivo.
— Eu notei.
— Você notou os sintomas. Nunca perguntou sobre o medo.
Dante olhou para Sophia.
— Você vem comigo.
Ela colocou a mão na minha.
— Não.
A recusa calma dela o atingiu com mais força do que qualquer bala poderia. Ele mandou os homens descerem, e quando o apartamento ficou vazio, de repente ele parecia menos um rei e mais um homem que finalmente tinha percebido que a própria família sentia medo dele.
Então os olhos dele pousaram no convite de casamento.
Eu tinha organizado cada detalhe daquela cerimônia enquanto amava, em segredo, o homem cujo nome estava impresso ao lado do de outra mulher. Bianca tinha descoberto essa fraqueza — e usado exatamente isso para me afastar dele.
Dante ficou me olhando por um longo instante.
— Por que você não me ligou?
Antes que eu pudesse responder, Sophia apertou o play no gravador.
A voz de Bianca preencheu o apartamento, seguida pelo nome da única pessoa em quem Dante confiava mais do que em qualquer outra pessoa viva.
Aquele nome mudaria tudo o que viria a seguir.
