Chapter 2
A voz de Bianca preenchia o apartamento com uma clareza fria.
“Ele nunca vai descobrir a tempo, papai. Assim que o casamento acontecer, a tutela da menina passa automaticamente para mim. Depois disso, é só questão de tempo até resolvermos o resto com o Cassius.”
Dante ficou paralisado.
O nome tinha sido dito claramente: Cassius.
Vi o sangue sumir do rosto dele.
— Cassius — ele repetiu, quase sem voz.
Sophia olhou para mim, sem entender por que aquele nome tinha causado tanto impacto.
— Quem é Cassius? — perguntei, tentando entender a gravidade da situação.
Dante passou a mão pelo rosto, como se tentasse afastar algo que não queria acreditar.
— Meu consigliere. Meu conselheiro de confiança desde que meu pai morreu. O homem que eu deixaria cuidar dos meus negócios se algo acontecesse comigo.
— Ele está do lado da Bianca — falei, juntando as peças.
— Ele está do lado de quem paga mais — Dante respondeu, com uma amargura que eu nunca tinha ouvido na voz dele.
Sophia apertou o gravador contra o peito, como se tivesse acabado de perceber o tamanho do que tinha descoberto sozinha.
— Eu não queria magoar ninguém — ela disse, baixinho. — Só queria que o tio Dante soubesse a verdade.
Dante se ajoelhou na frente dela, algo que eu nunca o tinha visto fazer com ninguém.
— Você fez a coisa certa, Sophia. A coisa mais corajosa que alguém fez por mim em muito tempo.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas dessa vez pareciam mais de alívio do que de medo.
Dante se levantou e me encarou.
— Vocês duas vêm comigo agora. Não é um pedido.
Percebi que dessa vez não era autoritarismo — era medo genuíno de perder o controle sobre a única coisa que ainda importava de verdade para ele.
— Para onde? — perguntei.
— Para um lugar que só eu e mais duas pessoas sabem que existe. Nem Cassius, nem Bianca, ninguém mais.
Enquanto arrumávamos as últimas coisas de Sophia, Dante fez uma série de ligações rápidas, cancelando acessos, trocando senhas, revogando permissões que Cassius tinha usado durante anos.
— Ele vai perceber que algo mudou — falei, observando a tensão nos ombros dele.
— Vai. Mas quando perceber, já vai ser tarde demais para reverter.
No carro blindado, Sophia adormeceu encostada em mim, exausta pela tensão dos últimos dias. Dante ficou em silêncio por um longo trecho, olhando pela janela.
— Há quanto tempo isso está acontecendo? — perguntei, finalmente.
— Não sei — ele admitiu. — Talvez meses. Talvez anos. Cassius sempre foi cuidadoso demais para deixar rastros.
— E a Bianca?
— Ela nunca amou ninguém além do que meu nome podia dar a ela. Isso eu sempre soube. O que eu não sabia era até onde ela estaria disposta a ir.
— Ela ameaçou uma criança.
— Eu sei — ele disse, e a voz dele tremeu, quase imperceptivelmente. — E isso é algo que eu nunca vou perdoar.
Chegamos a uma casa discreta, longe da cidade, cercada por árvores altas e sem nenhuma placa de identificação.
— Aqui vocês ficam seguras enquanto eu resolvo isso — disse Dante, carregando Sophia adormecida para dentro.
— E você? — perguntei.
— Eu vou fazer o que devia ter feito há muito tempo: descobrir exatamente até onde essa traição vai.
Ele colocou Sophia na cama e ficou observando-a dormir por um momento antes de se virar para mim.
— Elena, por que você nunca me contou o que estava acontecendo com ela?
Engoli em seco.
— Eu tentei. Várias vezes. Mas você sempre estava cercado de gente, de reuniões, da Bianca. Não havia espaço para eu chegar até você sem que alguém visse.
— Alguém como Cassius.
— Exatamente.
Ele ficou em silêncio, processando o quanto tinha sido cegamente manipulado dentro da própria casa.
— E o que você sente por mim, Elena? — ele perguntou de repente, pegando-me completamente de surpresa. — A verdade, dessa vez.
Meu coração disparou.
— Isso não importa agora, Dante. O que importa é proteger a Sophia.
— Importa sim — ele insistiu, se aproximando. — Porque eu passei dois anos ao seu lado sem enxergar o óbvio, e quase perdi vocês duas por causa disso.
Antes que eu pudesse responder, o celular dele vibrou violentamente.
Era uma mensagem de um número desconhecido, com apenas uma frase:
“Você não vai conseguir escondê-las para sempre. — C.”
