O ar no tribunal de Manhattan parecia pesado, misturando o cheiro de perfume caro com o peso esmagador da palavra “fim”.

Written by

in

Chapter 1

O ar no tribunal de Manhattan parecia pesado, misturando o cheiro de perfume caro com o peso esmagador da palavra “fim”.

Do outro lado da mesa de mogno, Nathaniel Thorne estava sentado com os ombros retos, o terno Tom Ford tão bem cortado que parecia afiado como vidro. Ele não parecia um homem perdendo a esposa. Parecia um CEO fechando uma aquisição hostil. Nathaniel era o rei do concreto, um homem que tinha redesenhado o horizonte de Nova York com ferro e ego. Por doze anos, Clara Thorne tinha sido sua parceira silenciosa, a sombra graciosa em cada evento, a curadora da imagem perfeita dele.

Mas hoje, ela era só a requerente.

— Que fique registrado — anunciou Robert Blackstone, advogado de Nathaniel, com voz grave — que meu cliente está oferecendo um pagamento único de 15 milhões de dólares, a propriedade nos Hamptons, e um acordo de confidencialidade vitalício. Em troca, a senhora Thorne abre mão de todos os direitos sobre o Grupo Thorn Development e suas subsidiárias.

A sala ficou em silêncio. Era uma miséria. O império Thorn valia 4,2 bilhões de dólares. Quinze milhões não era um acordo. Era um insulto. Uma gorjeta por uma década de serviço.

Os olhos de Nathaniel procuravam no rosto de Clara aquele lampejo de raiva que ele conhecia tão bem. Ele esperava que ela se inclinasse para o microfone e gritasse sobre as traições, as contas offshore que ele tinha escondido nas Ilhas Cayman, as noites em que a deixava sozinha na cobertura de mil metros quadrados enquanto “trabalhava” com sua CFO de vinte e quatro anos, Sienna Rossi.

Mas Clara não gritou. Nem sequer estremeceu.

Ela ficou perfeitamente imóvel, as mãos cruzadas sobre uma simples pasta manila. Vestia um conjunto Chanel vintage, azul-marinho, discreto, quase fúnebre. O cabelo, normalmente arrumado em coques elaborados para as câmeras, estava preso num rabo de cavalo liso e severo.

— Senhora Thorne. — A juíza Bernice Holloway olhou por cima dos óculos, a voz carregada de uma pontinha de pena. — A senhora deseja contestar o valor proposto? Sua advogada permaneceu notavelmente calada hoje.

Clara olhou para seu advogado, um homem de voz mansa chamado Arthur Vance, que apenas assentiu.

— Não desejo contestar nada, Excelência — disse Clara. A voz era firme, sem o tremor de uma mulher sendo roubada. — Aceito os termos como estão escritos. Nathaniel precisa do Grupo Thorn Development para manter seu legado. Eu só preciso da minha liberdade.

Um burburinho de sussurros percorreu a plateia. O sorriso de canto de Nathaniel vacilou por uma fração de segundo. Ele tinha se preparado para um massacre. Tinha contratado investigadores particulares para cavar sujeira sobre ela, pronto para pintá-la como instável na imprensa. Aquela submissão repentina soava errado.

— Tem certeza, Clara? — Nathaniel se inclinou para frente, a voz baixa e carregada de desdém. — Depois que assinar isso, não tem volta. Você não vai mais ser uma Thorn. Vai ser só mais uma divorciada num apartamento de aluguel controlado.

Clara finalmente encarou o olhar dele. Seus olhos, normalmente de um mel quente, pareciam agora jade frio.

— Eu sei exatamente quem eu vou ser, Nathaniel. Assina os papéis.

Com um floreio de canetas douradas, o casamento foi desmontado. A juíza bateu o martelo, o som ecoando como um tiro.

— Divórcio concedido.

Nathaniel se levantou imediatamente, abotoando o paletó. Não ofereceu aperto de mão nem palavra de despedida. Saiu do tribunal com Blackstone já ao telefone, provavelmente ligando para Sienna para comemorar. Deixou Clara sentada ali, ainda segurando a pasta manila.

Enquanto o tribunal esvaziava, Arthur Vance se aproximou e sussurrou:

— Está feito, Clara. O rastreador confirmou que as transferências offshore dele foram finalizadas às onze da manhã. Ele acha que escondeu a maior parte dos ativos líquidos.

Clara se levantou, alisando o tecido da saia.

— Ele acha que escondeu do tribunal, Arthur. Ele não percebeu que estava escondendo tudo isso… para mim.

Ela saiu do prédio, ignorando os flashes dos paparazzi esperando na escadaria do tribunal de Nova York. Eles gritavam perguntas.

— Clara, como é a sensação de perder tudo? Vai voltar para Ohio?

Ela não respondeu. Entrou numa SUV preta discreta.

— Para o heliporto — disse ao motorista.

— A pessoa está esperando a senhora? — perguntou o motorista.

Clara abriu a pasta manila. Dentro não havia nenhum documento jurídico. Havia um mapa por satélite do Mediterrâneo e um bilhete escrito à mão em papel cor de creme.

— O Solaris já está em águas internacionais — respondeu Clara, com um fantasma de sorriso nos lábios. — E sim, ele está me esperando há três anos.

Enquanto a SUV acelerava rumo ao heliporto da Rua 34 Leste, Clara tirou a aliança de casamento — um diamante lapidação esmeralda de doze quilates — e a deixou cair no porta-copos de couro como se fosse só uma embalagem de chiclete.

Nathaniel Thorne achava que tinha vencido a guerra mantendo suas torres.

Ele estava prestes a descobrir que, enquanto ele construía muros, Clara vinha construindo uma frota inteira.

E o nome escrito naquele bilhete não era o que ninguém, nem mesmo Nathaniel, jamais imaginaria.

Próximo Capítulo →

Lista de Capítulos