Eu sabia como desaparecer dentro da Blackmere House.

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Chapter 1

Eu sabia como desaparecer dentro da Blackmere House.

Lustrava os pisos até brilharem feito vidro. Abaixava a cabeça quando homens poderosos passavam pelos corredores. Nunca falava primeiro, nunca demorava perto de portas fechadas, e nunca olhava de perto demais pros carros pretos que entravam pela porta lateral depois da meia-noite.

O mais importante: eu nunca chamava atenção.

Foi assim que eu sobrevivi.

Então, numa manhã, meu carrinho de limpeza me traiu.

Eu estava empurrando ele pelo corredor de mármore quando uma das rodas travou com força no canto de um tapete. O carrinho virou pro lado, tombou, e caiu no chão com estrondo. Os produtos de limpeza se espalharam por todo lado, e uma pilha de pastas escorregou pelo mármore polido como segredos derramados.

Antes que eu conseguisse me controlar, tropecei pra frente.

Direto em cima de Roman Blackmere.

Todo empregado daquela propriedade sabia que o nome dele era mais do que um nome. Era um aviso sussurrado atrás de portas fechadas. Metade da cidade devia favores a ele, e a outra metade devia medo.

Ele estendeu a mão, provavelmente só pra me firmar.

Mas meu corpo reagiu antes que minha mente conseguisse processar qualquer coisa.

Caí ao lado do carrinho virado e joguei os dois braços sobre a cabeça.

Não sobre o rosto.

Não sobre o peito.

Sobre o crânio.

Eu me dobrei sobre mim mesma como uma criança esperando o próximo golpe vindo de cima.

Por três segundos insuportáveis, ninguém se moveu.

Então percebi o que tinha feito.

Meus braços caíram.

Meu rosto esfriou.

Roman Blackmere olhava pra mim de cima, e o silêncio entre nós parecia mais alto do que um grito. Ele me olhava como se eu tivesse confessado algo terrível sem dizer uma única palavra.

— Desculpa — sussurrei, catando os papéis espalhados com as mãos trêmulas. — Eu não vi o senhor.

Ele não disse nada.

Isso piorou tudo.

Ao meio-dia, meu arquivo de funcionária já estava na mesa dele.

À uma da tarde, o chefe de segurança dele já tinha encontrado a primeira mentira.

Eu soube porque a casa mudou ao meu redor. Os homens paravam de falar quando eu entrava num cômodo. Portas se fechavam rápido demais. Olhares me seguiam pelos corredores que eu tinha passado meses inteiros aprendendo a atravessar sem ser vista.

Naquela noite, um envelope apareceu do lado de fora do meu pequeno quarto.

Meu nome estava escrito na frente, com tinta preta e traços firmes.

Nora Vale.

Dentro, havia três linhas escritas à mão pelo próprio Roman.

Você não me deve explicação nenhuma.
Você não corre perigo nessa casa.
Eu me certifiquei disso.

Li o bilhete uma vez.

Depois de novo.

Depois mais uma vez.

Não havia ameaça nenhuma ali dentro. Nenhuma exigência. Nenhum aviso sobre o que aconteceria se eu tivesse mentido.

Isso me apavorou mais do que qualquer outra coisa.

Homens como Roman Blackmere não ofereciam segurança sem querer algo em troca.

Na manhã seguinte, antes do café, o chefe de segurança dele me encontrou perto da escada dos fundos.

— O Sr. Blackmere quer falar com a senhorita — ele disse.

Meus dedos se fecharam com força ao redor do corrimão.

— Sobre meu emprego? — perguntei, mal conseguindo respirar.

A expressão dele não mudou.

— Sobre sua segurança.

E foi naquele momento que eu soube: o segredo do qual eu vinha fugindo tinha finalmente encontrado o caminho até dentro da Blackmere House.

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