Chapter 4
Marcus Voss apareceu três dias depois, mais rápido e mais ousado do que qualquer um esperava.
Ele não veio sozinho, e não veio com cautela — chegou até o portão principal da Blackmere House ao entardecer, exigindo entrada, alegando ter “assuntos pessoais urgentes” com uma funcionária.
Os seguranças o detiveram no portão, mas ele gritou meu nome real alto o suficiente pra ecoar pela propriedade inteira, e eu, dentro da casa, congelei ao reconhecer aquela voz depois de tantos anos tentando esquecê-la.
— Ele está aqui — sussurrei, as pernas cedendo, Roman segurando meu braço antes que eu caísse completamente.
— Eu sei. E ele não vai chegar perto de você.
Roman desceu pessoalmente até o portão, e eu observei da janela do segundo andar, o coração martelando tão forte que doía, enquanto ele caminhava até Marcus com uma calma que parecia impossível diante da fúria crescente do meu ex-marido.
— Você não tem nada que me pertence aqui — disse Marcus, a voz alta o suficiente pra chegar até mim mesmo à distância. — Eleanor é minha esposa. Ela precisa voltar pra casa.
— Ela não é sua esposa há anos — respondeu Roman, a voz perigosamente calma. — E ela não vai voltar pra lugar nenhum com você.
— Isso não é problema seu.
— A partir de agora, é.
Marcus deu um passo à frente, e por um instante terrível, achei que ele fosse tentar algo violento ali mesmo no portão, mas os seguranças de Roman se moveram primeiro, formando uma barreira física entre os dois homens.
— Você sabe quem eu sou? — continuou Roman, a voz baixando ainda mais, algo genuinamente aterrorizante substituindo a calma anterior. — Sabe o que eu controlo nessa cidade?
— Não me importa quem você é.
— Deveria importar. Porque a partir desse momento, cada movimento que você fizer, cada conta bancária, cada contato profissional, cada favor que você já deveu a alguém nessa cidade — tudo isso vai ser examinado com um cuidado que você nunca imaginou ser possível.
O rosto de Marcus perdeu um pouco da confiança inicial.
— Isso é ameaça?
— Isso é uma promessa. Você vai sair dessa propriedade agora, e nunca mais vai se aproximar de Eleanor de novo. Se tentar, vai descobrir exatamente o motivo de metade dessa cidade atravessar a rua quando me vê chegando.
Marcus hesitou, o olhar passando pela propriedade, pelos seguranças, pela clara demonstração de poder que Roman representava sem sequer erguer a voz.
— Isso não vai terminar assim — disse ele, finalmente, recuando devagar em direção ao carro. — Ela é minha. Sempre foi.
— Ela nunca foi propriedade de ninguém.
Marcus foi embora, mas o alívio que eu esperava sentir não veio — em vez disso, um medo novo e gelado se instalou no meu peito, a certeza de que aquilo estava longe de terminar.
Roman voltou pra dentro da casa, encontrando-me ainda paralisada perto da janela, e a expressão dele, ao me ver, suavizou instantaneamente.
— Ele foi embora — disse ele, se aproximando devagar.
— Ele vai voltar. Ele sempre volta.
— Não dessa vez.
— Você não conhece ele, Roman. Ele não desiste. Nunca desistiu.
Roman tomou minhas mãos entre as dele, o gesto mais íntimo que já tínhamos compartilhado até então.
— Eu vou investigar cada aspecto da vida dele. Vou descobrir cada negócio sujo, cada dívida escondida, cada motivo legal ou ilegal pra garantir que ele nunca mais tenha liberdade suficiente pra se aproximar de você de novo.
— E se isso não for suficiente?
— Então eu uso outros métodos.
A frieza calculada na voz dele deveria ter me assustado, mas em vez disso, senti algo se acalmar dentro de mim pela primeira vez em anos — a sensação estranha e desconhecida de não estar mais sozinha naquela luta.
Dois dias depois, a informação que os homens de Roman reuniram revelou mais do que qualquer um esperava: Marcus Voss não era apenas um ex-marido abusivo com dinheiro suficiente pra contratar investigadores. Ele estava envolvido em fraude financeira substancial, desviando fundos de investidores havia anos, escondendo tudo atrás de uma fachada de sucesso legítimo.
— Isso é suficiente pra prendê-lo — disse Roman, mostrando os documentos reunidos, o rosto sério mas satisfeito. — Não vou precisar usar métodos menos legais. A lei vai fazer o trabalho por mim.
— Você tem certeza que isso vai funcionar?
— Tenho contatos no FBI que devem favores há anos. Essa evidência, entregue da forma certa, vai garantir que Marcus passe a próxima década numa cela federal, longe o suficiente pra nunca mais representar ameaça nenhuma.
Senti as lágrimas voltarem, mas dessa vez diferentes — não de medo, mas de um alívio tão profundo que doía.
— Obrigada — sussurrei. — Por acreditar em mim. Por não desistir até resolver isso de verdade.
Roman ergueu a mão devagar, dessa vez completando o gesto que tinha começado semanas atrás naquele corredor de mármore, tocando meu rosto com um cuidado que contradizia completamente a frieza calculada que eu tinha visto minutos atrás no portão.
— Eu prometi que ninguém erguesse a mão contra você nessa casa. Eu pretendo garantir que isso se estenda pro resto da sua vida também, não só enquanto você estiver sob esse teto.
