Chapter 2
O escritório de Roman Blackmere ficava no segundo andar, uma sala grande demais pra um homem só, cheia de estantes de livros que pareciam nunca terem sido abertas e uma escrivaninha de madeira escura ocupando o centro como um trono discreto.
Entrei devagar, as mãos entrelaçadas na frente do avental, os olhos fixos no chão por puro instinto.
— Sente-se, Nora.
A voz dele era mais suave do que eu esperava, sem nenhum traço da autoridade fria que eu conhecia de longe, através de anos evitando cruzar o caminho dele.
— Prefiro ficar de pé, senhor.
— Não era um pedido.
Sentei na borda da cadeira, o corpo inteiro tenso, pronto pra qualquer coisa.
Roman ficou em silêncio por um longo momento, os dedos tamborilando devagar sobre uma pasta fechada na mesa — meu arquivo, percebi, com um arrepio gelado subindo pela espinha.
— Meu chefe de segurança encontrou inconsistências no seu histórico — disse ele, finalmente. — O nome que você usa aqui não bate com nenhum registro anterior a três anos atrás.
— Eu posso explicar.
— Eu não pedi explicação.
— Então por que estou aqui?
Ele ergueu os olhos, e havia algo ali que eu não sabia identificar — não raiva, não suspeita, algo mais parecido com cautela cuidadosa, como quem se aproxima devagar de um animal ferido.
— Porque ontem, quando estendi a mão pra te ajudar a levantar, você se encolheu no chão como se esperasse ser espancada.
As palavras me atingiram como um soco no estômago.
— Isso foi um mal-entendido.
— Nora.
Meu nome falso na boca dele carregava um peso estranho, como se ele já soubesse que não era real.
— Eu passei a vida inteira ao redor de homens perigosos. Aprendi a reconhecer medo de verdade quando vejo. O que eu vi ontem não foi um tropeço qualquer. Foi treino.
Minhas mãos começaram a tremer, e eu as escondi debaixo do avental antes que ele percebesse.
— Eu não sei do que o senhor está falando.
— Está bem.
A resposta me pegou desprevenida.
— Está bem?
— Eu não vou forçar você a falar sobre algo que claramente ainda machuca. Mas preciso que entenda uma coisa, Nora, ou seja lá qual for seu nome verdadeiro: nessa casa, ninguém vai levantar a mão contra você. Nunca. Não importa o que aconteceu antes de você chegar aqui.
Senti os olhos arderem, uma reação que eu não tinha permitido a mim mesma em anos.
— Por que o senhor se importa? Eu sou só a empregada que limpa os corredores.
— Porque eu vi o suficiente do mundo pra reconhecer quando alguém precisa que uma promessa seja dita em voz alta, mesmo que não acredite nela ainda.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros que eu já tinha vivido naquela casa — não tenso, não perigoso, apenas… pesado, de um jeito que eu não sabia como carregar.
— Meu chefe de segurança quer investigar mais fundo — continuou Roman, a voz mais cautelosa agora. — Descobrir de onde você veio, o que está fugindo. Eu posso mandar ele parar, se você preferir.
— Por que faria isso?
— Porque talvez você tenha motivos pra não querer que certas pessoas descubram onde está.
O jeito como ele disse aquilo, tão preciso, tão exatamente certo, fez meu sangue gelar.
— Como o senhor sabe disso?
— Eu não sei. Mas reconheço o padrão. Mulheres que mudam de nome, que se encolhem diante de mãos erguidas, que nunca falam sobre o passado — geralmente estão fugindo de alguém, não de alguma coisa.
Fiquei em silêncio, incapaz de confirmar ou negar, o coração martelando tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir.
— Eu não vou pressionar você a contar agora — disse ele, se levantando devagar, contornando a mesa até ficar mais perto, mas mantendo uma distância cuidadosa, respeitosa. — Mas quero que saiba que, seja o que for, você está segura aqui. Isso não é uma oferta condicional.
— Homens como o senhor não oferecem segurança sem querer nada em troca.
Algo cruzou o rosto dele — quase mágoa, rapidamente escondida atrás do controle habitual.
— Talvez você tenha conhecido só o tipo errado de homem até agora.
Não soube o que responder àquilo, e o silêncio se estendeu entre nós, carregado de perguntas que nenhum dos dois estava pronto pra fazer completamente.
— Pode voltar ao trabalho — disse ele, finalmente, se afastando. — Mas, Nora… a porta do meu escritório está aberta, se você decidir que quer falar sobre isso.
Saí dali com as pernas fracas, o bilhete dele ainda guardado no bolso do avental, sentindo pela primeira vez em três anos algo perigosamente parecido com esperança.
