Eu sabia como desaparecer dentro da Blackmere House.

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Chapter 3

Duas semanas se passaram naquele equilíbrio estranho — eu evitando o escritório dele, ele nunca insistindo, mas sempre presente de um jeito discreto, aparecendo nos corredores nos momentos em que eu mais precisava, sem nunca explicar como sabia.

Foi numa quinta-feira à tarde que tudo mudou.

Eu estava organizando a lavanderia no porão quando ouvi vozes vindas do corredor de serviço — dois dos seguranças de Roman, falando baixo, mas não baixo o suficiente.

— Chegou uma ligação pro escritório principal — disse um deles. — Um homem perguntando por uma mulher chamada Eleanor Voss. Disse que ela trabalha aqui.

Meu corpo inteiro congelou.

Eleanor Voss.

Meu nome verdadeiro, um nome que eu tinha enterrado tão fundo que quase esquecia que existia.

— O que o Sr. Blackmere disse? — perguntou o outro segurança.

— Negou tudo. Disse que não tínhamos ninguém com esse nome trabalhando aqui.

Minhas pernas mal me sustentaram até a lavanderia terminar de esvaziar, e assim que consegui, corri pelo corredor de serviço, ignorando todas as regras que tinha passado anos seguindo, direto até o escritório de Roman.

Ele estava ao telefone quando entrei sem bater, mas desligou assim que viu meu rosto.

— Nora, o que houve?

— Eleanor Voss — sussurrei, a voz tremendo. — Alguém ligou perguntando por Eleanor Voss.

O rosto dele endureceu instantaneamente.

— Então esse é seu nome verdadeiro.

Não era uma pergunta.

Assenti, incapaz de formar palavras, os anos de fuga cuidadosa desmoronando de uma vez.

— Quem é o homem que ligou? — perguntou Roman, a voz perigosamente calma.

— Eu não sei ao certo quem ligou. Mas eu sei quem está procurando por mim.

— Me conta.

Sentei na cadeira que ele tinha oferecido semanas atrás, as mãos tremendo demais pra esconder.

— Meu ex-marido. Marcus Voss. Ele… — a voz falhou, e tive que respirar fundo antes de continuar. — Ele batia em mim. Anos inteiros. Eu tentei sair três vezes antes de conseguir de verdade, e cada vez que ele me encontrava, era pior que a anterior.

Os olhos de Roman escureceram, algo perigoso e contido crescendo por trás do controle habitual.

— Ele te encontrou de novo.

— Ele tem contatos. Sempre teve. Dinheiro, conexões, gente disposta a procurar em troca de favores. Eu mudei de cidade, de nome, de tudo — e mesmo assim ele sempre encontra um jeito.

— Não vai encontrar dessa vez.

A certeza absoluta na voz dele deveria ter me tranquilizado, mas só aumentou o medo.

— O senhor não entende do que ele é capaz. Ele já quase me matou uma vez. Se ele descobrir onde estou de verdade, se ele conseguir entrar nessa casa—

— Ele não vai entrar nessa casa.

Roman se levantou, contornando a mesa até se ajoelhar na minha frente, ficando na mesma altura, um gesto que eu reconheci, com um choque súbito, como algo que ele fazia deliberadamente pra não parecer ameaçador.

— Eleanor, olha pra mim.

Ergui os olhos, encontrando os dele, cheios de uma fúria contida que não era direcionada a mim.

— Ninguém vai te machucar nessa casa. Eu tenho recursos que seu ex-marido nunca vai conseguir igualar. Segurança, informação, influência sobre metade dessa cidade. E vou usar tudo isso pra garantir que ele nunca mais chegue perto de você.

— Por quê? Eu sou só a empregada que limpa seus corredores.

— Você parou de ser só isso há duas semanas, quando se encolheu no chão daquele corredor. Alguma coisa em mim decidiu, naquele exato momento, que eu não ia deixar mais nenhuma mão erguida chegar perto de você.

As lágrimas que eu vinha segurando por anos finalmente escaparam, e Roman não se moveu pra me tocar, apenas ficou ali, presença firme e paciente, deixando espaço pra eu desmoronar sem julgamento.

— Eu tenho tanto medo — sussurrei, a voz quebrada. — Ele nunca vai parar de procurar. Nunca vai deixar eu ser livre de verdade.

— Então vamos garantir que ele não tenha escolha.

Ergui os olhos, confusa.

— Como assim?

Algo frio e calculado cruzou o rosto de Roman, o mesmo tipo de expressão que fazia homens poderosos atravessarem a rua pra evitar ele.

— Marcus Voss vai descobrir, muito em breve, que existem consequências reais pra homens que acham que podem caçar mulheres pelo país inteiro sem nunca prestar contas por isso.

O jeito como ele disse aquilo, sem gritar, sem ameaça exagerada, apenas uma certeza fria e absoluta, me fez perceber, pela primeira vez desde que tinha chegado naquela casa, que talvez eu tivesse encontrado alguém capaz de fazer o medo que me perseguia há anos finalmente parar de vez.

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