Chapter 1
Na primeira noite em que meu marido voltou para casa depois de três anos fora, reparei numa coisa estranha: ele não dormia mais de costas. Em vez disso, enlaçou o braço na minha cintura como se fizesse aquilo havia anos. “Quem te ensinou a me abraçar assim?” eu perguntei. Ele suspirou e respondeu: “Se você fingir que não sabe de nada, pode continuar sendo minha esposa.” Eu não discuti. No dia seguinte, liguei pro meu advogado, porque eu já tinha provas do que ele andava fazendo naqueles três anos.
“Se você fingir que não sabe de nada, pode continuar sendo minha esposa.”
Ethan disse isso no escuro, com uma calma gelada que me congelou muito mais do que qualquer confissão jamais conseguiria.
Eu tinha acabado de perguntar por que, depois de três anos trabalhando fora, em outra cidade, ele tinha voltado pra casa com o hábito repentino de enlaçar o braço com força na minha cintura enquanto dormia. Ele nunca tinha feito isso antes.
— Quem te ensinou a dormir assim? — perguntei, baixinho.
O braço dele se afastou do meu corpo na hora. Ele se levantou, foi até a varanda e acendeu um cigarro.
— Mabel, tem coisa que eu não te conto porque você não precisa saber. A Chloé não é como as outras mulheres. Se você não fizer escândalo, ela nunca vai te incomodar.
Assim, sem nem um pingo de vergonha. Como se eu fosse a intrusa no meu próprio casamento.
— Então escolhe — eu disse, indo até a varanda. — Ela ou eu.
Ethan travou o maxilar.
Por três longos anos, eu esperei o retorno dele enquanto ele liderava uma grande expansão da empresa em outro estado. A gente tinha conversado sobre ter filhos quando ele voltasse, sobre finalmente realizar aquele casamento grande e formal que nunca tivemos, sobre recuperar o tempo perdido.
Mas, desde a primeira noite em que ele voltou, eu já sabia que alguma coisa estava profundamente errada.
Ethan sempre chegava em casa recém-banhado. Sempre. Ele conseguia lavar o perfume de outra mulher, mas não percebeu que eu reconheceria o cheiro doce e persistente de um sabonete de banho de luxo que ele nunca tinha comprado pra si mesmo.
E naquela manhã, eu tinha encontrado algo bem pior.
Chloé, vinte e sete anos — assistente no escritório corporativo internacional dele.
Ethan tinha financiado, discretamente, a startup do irmão dela, pago a reforma da casa dos pais dela em outro estado, e voado o país inteiro especificamente pra festa de aniversário de sessenta anos da mãe dela.
Enquanto isso, em três anos inteiros, ele nunca tinha voltado nem uma vez pro meu.
Quando confrontei ele com isso, os olhos dele caíram. Por um segundo, achei que tinha visto um lampejo de culpa.
Depois ele me puxou pra um abraço. — Só me dá um tempo. Eu vou terminar com ela.
Aquelas palavras ainda carregavam o tom familiar do homem por quem eu tinha me apaixonado. Mas, no fundo, eu já sabia que aquele homem não existia mais.
Naquela noite, Ethan dormiu no quarto de hóspedes.
Às duas da manhã, desci pra pegar um copo d’água e ouvi a voz dele vindo do escritório. Ele estava numa videochamada.
— Por que você contou pra ela sobre mim? — Chloé perguntou, com uma vozinha manhosa. — Agora ela deve estar me odiando.
Ethan soltou uma risadinha baixa — um som que eu não ouvia ele fazer comigo havia anos. — Enquanto eu estiver aqui, ninguém vai encostar em você.
Uma pequena pausa.
— Vem cedo amanhã — ele completou, suave. — Quero tomar um café da manhã feito por você.
Fiquei parada no corredor, congelada.
Na manhã seguinte, desci de pijama. Chloé já estava lá, na minha cozinha. Jovem, impecável, sorridente, os braços enlaçados com força no homem que ainda era meu marido.
Quando me viu, fingiu susto e se encolheu atrás dele. — Ai… desculpa. Tenho medo que ela fique brava comigo.
Ethan olhou pra mim na hora, como se eu fosse uma ameaça prestes a explodir.
Depois nos apresentou: — Mabel, essa é a Chloé.
Desci mais um degrau.
Chloé caminhou até mim segurando um prato de comida quente. Antes que eu sequer chegasse perto dela, ela se jogou dramaticamente no chão de madeira, derramando a comida toda.
Ethan correu pra levantar ela. — Mabel! Eu falei pra você não machucar ela!
Encarei ele, sem acreditar. — Eu nem encostei nela.
— A Chloé é muito frágil — ele rebateu. — Você não pode agir assim!
Olhei direto nos olhos dele. — Eu não empurrei ela, Ethan. Olha pra mim e me diz que acredita em mim.
Ethan hesitou. Durou só um segundo.
Depois Chloé enterrou o rosto no peito dele, chorando, e ele parou de olhar pra mim de vez.
Naquele único segundo, entendi que meu casamento não tinha só quebrado.
Ele estava morto havia três anos.
E o que eu fiz depois foi algo que nenhum dos dois viu vindo.
