Na primeira noite em que meu marido voltou para casa depois de três anos fora, reparei numa coisa estranha: ele não dormia mais de costas.

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Chapter 4

A reunião de diretoria foi marcada pra sexta-feira às dez da manhã, numa sala de vidro no último andar da sede da Vance Global.

Eu não fui convidada oficialmente — mas Warren me pediu pra chegar quinze minutos antes, “só por precaução”.

Ethan entrou sorridente, sem desconfiar de nada, cumprimentando os diretores com aquele charme de sempre.

Até ver a pasta em cima da mesa.

E, ao lado dela, minha presença, sentada discretamente no canto da sala.

O sorriso dele murchou na hora.

— Pai, o que é isso?

Warren não respondeu de imediato. Abriu a pasta e começou a ler, em voz alta, cada transferência, cada data, cada nome.

C. Reyes Consultoria.

Passagens em datas de aniversários.

O anel de noivado.

A cada item, o rosto de Ethan ficava mais pálido, mais tenso.

— Isso pode ser explicado — ele tentou, a voz falhando.

— Explique então — Warren disse, cruzando os braços.

Ethan olhou pra mim, como se esperasse que eu interviesse, que defendesse ele como sempre tinha feito.

Eu não disse nada.

— Chloé… ela passou por um momento difícil. Eu só estava ajudando.

— Ajudando com um anel de noivado, Ethan? — um dos diretores mais velhos perguntou, sem esconder o desprezo na voz.

Foi nesse momento que a porta da sala se abriu, e Chloé entrou, sem ser chamada.

— Eu vim porque isso não é justo com ele — ela disse, olhando pra todos. — Ethan não fez nada de errado. Ele só…

— Ele desviou dinheiro da empresa da família pra sustentar um caso extraconjugal — Warren cortou, sua voz ecoando pela sala de vidro. — Isso, senhorita Reyes, tem um nome bem específico: fraude.

Chloé empalideceu.

— Eu não sabia que era dinheiro da empresa. Ele me disse que era economia pessoal dele.

— E você acreditou porque era conveniente acreditar — eu disse, finalmente quebrando meu silêncio.

Todos os olhos se voltaram pra mim.

— Eu sabia de tudo isso há semanas — continuei. — Sabia do anel, da consultoria falsa, das viagens. Fiquei calada porque queria que a verdade aparecesse do jeito certo, na frente de quem realmente importava: a família que construiu essa empresa com trabalho honesto.

Ethan me encarou, algo entre raiva e desespero na expressão.

— Você fez isso de propósito. Você armou isso tudo.

— Eu não armei nada, Ethan. Eu só parei de fingir que não via o que estava bem na minha frente. Isso é diferente.

Warren bateu a mão na mesa, encerrando a discussão.

— Ethan, você está suspenso da diretoria, com efeito imediato, até uma investigação completa sobre o uso indevido de recursos da empresa. E, dependendo do resultado, pode responder judicialmente por isso.

— Pai, por favor…

— Você desonrou o nome dessa família, filho. Não foi a Mabel. Foi você.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Chloé, aos prantos, saiu correndo da sala, e Ethan, pela primeira vez desde que eu o conhecia, pareceu completamente perdido, sem saber pra onde olhar.

— Mabel — ele disse, a voz baixa, quase implorando. — Isso não precisa acabar assim.

Eu me levantei, ajeitando o casaco, olhando pra ele com uma calma que eu mesma não sabia que era capaz de sentir.

— Já acabou, Ethan. Faz três anos que acabou. Você só não estava prestando atenção.

Saí da sala sem olhar pra trás, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, o peso enorme saindo dos meus ombros.

Mas eu sabia que aquilo ainda não era o fim.

Era só o começo das consequências.

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