Chapter 4
A reunião de diretoria foi marcada pra sexta-feira às dez da manhã, numa sala de vidro no último andar da sede da Vance Global.
Eu não fui convidada oficialmente — mas Warren me pediu pra chegar quinze minutos antes, “só por precaução”.
Ethan entrou sorridente, sem desconfiar de nada, cumprimentando os diretores com aquele charme de sempre.
Até ver a pasta em cima da mesa.
E, ao lado dela, minha presença, sentada discretamente no canto da sala.
O sorriso dele murchou na hora.
— Pai, o que é isso?
Warren não respondeu de imediato. Abriu a pasta e começou a ler, em voz alta, cada transferência, cada data, cada nome.
C. Reyes Consultoria.
Passagens em datas de aniversários.
O anel de noivado.
A cada item, o rosto de Ethan ficava mais pálido, mais tenso.
— Isso pode ser explicado — ele tentou, a voz falhando.
— Explique então — Warren disse, cruzando os braços.
Ethan olhou pra mim, como se esperasse que eu interviesse, que defendesse ele como sempre tinha feito.
Eu não disse nada.
— Chloé… ela passou por um momento difícil. Eu só estava ajudando.
— Ajudando com um anel de noivado, Ethan? — um dos diretores mais velhos perguntou, sem esconder o desprezo na voz.
Foi nesse momento que a porta da sala se abriu, e Chloé entrou, sem ser chamada.
— Eu vim porque isso não é justo com ele — ela disse, olhando pra todos. — Ethan não fez nada de errado. Ele só…
— Ele desviou dinheiro da empresa da família pra sustentar um caso extraconjugal — Warren cortou, sua voz ecoando pela sala de vidro. — Isso, senhorita Reyes, tem um nome bem específico: fraude.
Chloé empalideceu.
— Eu não sabia que era dinheiro da empresa. Ele me disse que era economia pessoal dele.
— E você acreditou porque era conveniente acreditar — eu disse, finalmente quebrando meu silêncio.
Todos os olhos se voltaram pra mim.
— Eu sabia de tudo isso há semanas — continuei. — Sabia do anel, da consultoria falsa, das viagens. Fiquei calada porque queria que a verdade aparecesse do jeito certo, na frente de quem realmente importava: a família que construiu essa empresa com trabalho honesto.
Ethan me encarou, algo entre raiva e desespero na expressão.
— Você fez isso de propósito. Você armou isso tudo.
— Eu não armei nada, Ethan. Eu só parei de fingir que não via o que estava bem na minha frente. Isso é diferente.
Warren bateu a mão na mesa, encerrando a discussão.
— Ethan, você está suspenso da diretoria, com efeito imediato, até uma investigação completa sobre o uso indevido de recursos da empresa. E, dependendo do resultado, pode responder judicialmente por isso.
— Pai, por favor…
— Você desonrou o nome dessa família, filho. Não foi a Mabel. Foi você.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Chloé, aos prantos, saiu correndo da sala, e Ethan, pela primeira vez desde que eu o conhecia, pareceu completamente perdido, sem saber pra onde olhar.
— Mabel — ele disse, a voz baixa, quase implorando. — Isso não precisa acabar assim.
Eu me levantei, ajeitando o casaco, olhando pra ele com uma calma que eu mesma não sabia que era capaz de sentir.
— Já acabou, Ethan. Faz três anos que acabou. Você só não estava prestando atenção.
Saí da sala sem olhar pra trás, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, o peso enorme saindo dos meus ombros.
Mas eu sabia que aquilo ainda não era o fim.
Era só o começo das consequências.
