Chapter 2
Duas semanas antes de Ethan voltar, eu já tinha marcado a primeira reunião com meu advogado, Grant Ashford.
Não porque eu suspeitasse de alguma coisa específica.
Mas porque, nos últimos seis meses do “trabalho fora”, os relatórios financeiros da empresa da família tinham parado de chegar pra mim, como sempre chegavam.
E isso, pra quem cresceu sendo filha de contador, é a primeira bandeira vermelha que existe.
— Mabel, você quer que eu investigue seu próprio marido? — Grant perguntou, na época, ajeitando os óculos.
— Eu quero que você investigue os números. As pessoas eu descubro sozinha.
Ele começou pelas contas da Vance Global ligadas ao escritório de Illinois.
Em três semanas, tinha uma pasta com mais de quarenta páginas.
Transferências mensais para uma conta em nome de “C. Reyes Consultoria” — que, veja só, não prestava consultoria nenhuma.
Passagens aéreas compradas no cartão corporativo, sempre em datas que coincidiam, estranhamente, com feriados e aniversários que eu conhecia de cor: aniversário da mãe de alguém, formatura de um irmão, um Natal inteiro “resolvendo pendências no escritório”.
— Essa Chloé Reyes trabalha há quanto tempo com ele? — perguntei a Grant, numa das nossas reuniões.
— Contratada há dois anos e sete meses. Assistente executiva.
— E o salário dela bate com esses valores que saem da conta pessoal do Ethan?
— Não. De jeito nenhum. O salário dela é o de uma assistente comum. Isso aqui — ele bateu na pasta — é dinheiro pessoal do seu marido, saindo em nome de “presentes”, “apoio familiar”, “investimento”.
Investimento no irmão dela. Reforma pra casa dos pais dela. Um anel de noivado — sim, um anel — comprado onze meses atrás, numa joalheria de Chicago, nunca usado por mim.
Eu me lembro exatamente de onde estava sentada quando li aquele item da lista.
Não chorei.
Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa naquele momento: eu simplesmente não senti nada além de uma calma fria, quase clínica.
— O que você quer fazer com isso? — Grant perguntou.
— Nada, por enquanto. Quero que ele volte. Quero que ele durma na minha cama achando que eu não sei de nada.
— Isso é perigoso, Mabel. Emocionalmente falando.
— Perigoso é ele achar que pode fazer isso comigo minha vida inteira e sair impune.
Então, quando Ethan finalmente voltou, três semanas atrás, eu já sabia de tudo antes mesmo dele tirar a mala do carro.
Sabia do anel.
Sabia da consultoria fantasma.
Sabia até do apelido bobo que ele tinha salvo no celular dela: “Flor”.
O que eu não sabia — e isso doeu de um jeito diferente — era que ele traria os hábitos dela pra dentro da nossa cama, sem nem perceber.
O jeito de dormir enlaçado.
O sabonete.
Pequenos cacos de uma vida inteira que ele estava construindo em paralelo, e que, sem querer, vazavam pra dentro da vida que ele fingia continuar comigo.
Na manhã depois do café da manhã derramado, liguei pra Grant assim que Ethan saiu pra “resolver umas coisas na empresa” — eu sabia exatamente que tipo de coisa.
— Preciso que você acelere tudo — falei, a voz mais firme do que eu esperava. — Quero saber se existe alguma cláusula na sociedade da Vance Global que proteja meus direitos, caso as coisas cheguem no divórcio.
— Existe. Você tem 15% de participação em nome próprio, herdado do seu pai, lembra? Isso é seu, independente do casamento.
— E o Ethan sabe disso?
— Ele devia saber. Mas, pelo visto, tem gente que confia demais na própria arrogância pra prestar atenção nos detalhes.
Uma ideia começou a tomar forma na minha cabeça — lenta, fria, exata.
Se Ethan achava que podia trocar sua esposa por uma “flor” delicada demais pra levar um empurrão que nunca aconteceu, ele ainda não fazia ideia de quanto tempo eu tinha passado observando, calada, guardando cada prova.
Naquela tarde, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
“Sei que você sabe de tudo. Só quero que saiba que eu amo ele de verdade. Não sou só uma aventura.” — Chloé.
Eu fiquei olhando pra tela por um bom tempo antes de responder.
“Então prove isso quando tudo vier à tona.” — foi tudo que escrevi.
Ela não respondeu.
Mas eu soube, pela forma como o clima em casa mudou nos dias seguintes — Ethan mais nervoso, mais protetor com o celular, evitando meu olhar — que minha mensagem tinha acertado bem onde eu queria.
O que nenhum dos dois sabia era que a reunião marcada para a semana seguinte não era sobre “resolver as coisas”.
Era sobre o pai de Ethan, Warren Vance, fundador da empresa, descobrir exatamente onde o dinheiro da própria família estava indo parar.
E eu tinha um lugar bem na primeira fila pra assistir.
