Na primeira noite em que meu marido voltou para casa depois de três anos fora, reparei numa coisa estranha: ele não dormia mais de costas.

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Chapter 3

Warren Vance nunca gostou muito de mim.

Achava que eu era “prática demais” pra ser esposa de herdeiro, sempre com aquele jeito de examinar números em vez de sorrisos em fotos de família.

Mas foi exatamente essa “praticidade” que me fez ligar pra ele numa terça-feira, pedindo pra almoçarmos, “só nós dois, sem Ethan”.

Ele aceitou, curioso.

Nos sentamos num restaurante discreto no centro, longe dos olhos de qualquer conhecido.

— Mabel, você nunca me chamou pra almoçar sozinha antes. O que está acontecendo?

Abri a pasta que Grant tinha preparado, mas não entreguei ainda.

— Antes de mostrar isso, preciso saber uma coisa: o senhor conhece uma consultoria chamada C. Reyes?

Warren franziu a testa.

— Nunca ouvi falar. Por quê?

Empurrei a pasta pra ele.

Ele demorou dez minutos lendo, o rosto ficando cada vez mais duro a cada página.

— Isso é dinheiro saindo direto da conta pessoal do Ethan, ou da empresa?

— As duas coisas, Warren. Olha a página doze.

Ele olhou. Ficou em silêncio.

— Isso é desvio de recursos corporativos pra sustentar… — ele parou, sem conseguir terminar a frase.

— Pra sustentar a amante dele, sim. Uma assistente do próprio escritório.

Warren fechou a pasta com força.

— Há quanto tempo você sabe disso?

— Tempo suficiente pra ter certeza absoluta antes de vir até o senhor.

Ele passou a mão pelo rosto, envelhecendo dez anos na minha frente.

— Eu construí essa empresa pensando em deixar pro meu filho. Não pra ele jogar fora sustentando os caprichos de uma menina que nem tem cargo de peso na estrutura.

— Isso não é só sobre caprichos, Warren. Ele comprou um anel de noivado pra ela.

O garfo dele bateu no prato com força.

— Um o quê?

— Onze meses atrás. Numa joalheria em Chicago. Nunca usado por mim, claro.

Warren ficou em silêncio por um longo tempo, olhando pela janela.

— O que você quer fazer com isso, Mabel?

— Eu quero que a verdade apareça. Da forma certa, no momento certo. E quero que o senhor decida o que fazer com a empresa que construiu.

— E o seu casamento?

— Meu casamento morreu há três anos, Warren. Isso aqui é só o funeral.

Ele assentiu, devagar, os olhos duros agora, mas não mais comigo.

— Vou marcar uma reunião de diretoria. Quero ele explicando isso pra mim, olho no olho, na frente do conselho todo.

— Vai ser em quanto tempo?

— Sexta-feira. Não vou esperar mais.

Voltei pra casa naquela noite sentindo, pela primeira vez em semanas, que o controle estava voltando pras minhas mãos.

Mas, ao chegar, encontrei Chloé sentada na minha sala.

Sozinha. Esperando por mim.

— Ethan não sabe que estou aqui — ela disse, se levantando. — Vim porque preciso entender uma coisa.

— Entender o quê, exatamente?

— Se você vai destruir a vida dele. A carreira dele. Tudo que ele construiu.

Eu quase ri.

— Ele já destruiu a vida dele sozinho, Chloé. Eu só vou garantir que ele viva com as consequências.

Ela cruzou os braços, os olhos marejando de um jeito que, dessa vez, eu não soube dizer se era manipulação ou medo de verdade.

— Eu não pedi pra me apaixonar por ele.

— E eu não pedi pra ser traída por três anos. Só que uma de nós duas vai sair machucada dessa história, e eu já decidi que não vai ser eu de novo.

Ela saiu sem dizer mais nada, batendo a porta atrás de si.

Fiquei sozinha na sala, o coração batendo forte, mas a mente mais clara do que jamais esteve desde que Ethan voltou.

Sexta-feira estava chegando.

E, pela primeira vez, era Ethan quem não fazia ideia do que estava por vir.

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