Chapter 3
Levei Vanessa e Daniel para a biblioteca do meu pai, longe dos ouvidos curiosos do salão.
Meu tio Martin insistiu em entrar junto, “para garantir que tudo fosse justo”.
Clara ficou na porta, hesitante, até eu fazer um gesto para que ela entrasse também.
Ela merecia estar lá mais do que qualquer outra pessoa naquela casa.
Fechei a porta.
O clique da fechadura pareceu ecoar mais alto do que deveria.
“Agora que estamos sozinhos”, eu disse, “vamos parar de fingir.”
Vanessa se sentou numa poltrona, as pernas cruzadas, tentando parecer no controle.
“Fingir o quê exatamente? Você é quem está fingindo não andar.”
“Isso é verdade”, admiti. “Mas ao contrário de você, minha mentira nunca prejudicou ninguém.”
Ela ficou pálida por um segundo.
Meu chefe de segurança entrou logo depois, com uma pasta fina debaixo do braço.
Ele a colocou sobre a mesa e a abriu.
Dentro, havia cópias de e-mails.
E um contrato preliminar de transferência de ações, com a assinatura de Daniel numa das cláusulas de testemunha.
“Onde você conseguiu isso?” Daniel perguntou, a voz tremendo.
“Clara trabalha nesta casa há três anos”, respondi. “As pessoas esquecem que empregados enxergam tudo. E ouvem tudo.”
Clara ficou em silêncio, mas segurava as próprias mãos com força, como se precisasse se firmar.
“Eu vi vocês dois discutindo no escritório, duas semanas antes do acidente”, ela disse finalmente. “Vanessa falava em ‘quando ele não estiver mais no comando’. Não entendi na hora. Só entendi depois.”
“Depois de quê?” perguntei.
“Depois que o senhor voltou do hospital dizendo que não conseguia andar. Eu vi o jeito que ela sorriu quando ninguém estava olhando.”
Vanessa se levantou, furiosa.
“Isso é loucura! Eu nunca desejei que você se machucasse!”
“Eu não disse que você desejou o acidente”, respondi. “Eu disse que você aproveitou ele.”
Silêncio.
Martin, que até então tinha ficado calado, finalmente falou.
“Isso pode ser resolvido em particular. Não precisa virar escândalo.”
“Vai virar escândalo assim que eu decidir que vai”, eu disse. “A pergunta agora é: quem mais está envolvido?”
Daniel escondeu o rosto nas mãos.
“Foi a mãe dela”, ele confessou, a voz quebrando. “Foi ideia dela desde o início. Vanessa só… deixou acontecer.”
Vanessa se virou para ele, os olhos cheios de traição.
“Cala a boca, Daniel.”
“Não vou mais calar a boca”, ele disse. “Estou cansado de carregar isso sozinho.”
Fiquei olhando para os dois, meus supostos entes mais próximos, se destruindo na minha frente.
E, pela primeira vez desde o acidente, senti que a verdade finalmente estava vindo à tona.
