A primeira vez que minha noiva me chamou de inútil, a sala inteira riu.

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Chapter 5

Duas semanas depois, reuni todos de novo — desta vez no salão principal da sede da empresa, não numa festa.

O conselho estava presente.

Investidores.

Advogados.

E, sentados lado a lado, ainda sem saber exatamente o que ia acontecer, Vanessa, Daniel e a mãe dela.

Eu entrei andando.

Sem cadeira de rodas.

Sem manta.

O silêncio que se abateu sobre a sala foi ainda mais pesado do que aquele da noite da festa.

“Ele… está andando”, alguém sussurrou.

“Estou andando há semanas”, respondi, calmo. “Eu só precisava descobrir quem ficaria ao meu lado achando que eu não podia mais andar.”

Vanessa levantou-se, tentando recuperar o controle.

“Isso é uma armadilha—”

“Sente-se”, eu disse, sem levantar a voz. “Você já teve sua vez de falar.”

Ela se sentou.

Abri a pasta na minha frente e comecei a projetar os documentos na tela atrás de mim.

Os e-mails.

O contrato de transferência de ações.

As gravações das câmeras escondidas na festa.

E, por fim, o laudo pericial reaberto do carro, confirmando adulteração no sistema de freios.

Gritos abafados percorreram a sala.

A mãe de Vanessa ficou branca como papel.

“Isso é calúnia”, ela disse, com a voz tremendo. “Vocês não têm prova nenhuma de que eu—”

“Temos a ligação que Clara ouviu”, eu disse. “E temos a perícia. E temos Daniel, que já confirmou tudo por escrito ao meu advogado.”

Daniel baixou a cabeça, sem coragem de olhar para ninguém.

“Eu decidi cooperar”, ele disse, baixinho. “Foi a única coisa certa que me restava fazer.”

Vanessa olhou para ele com puro desprezo.

“Você me traiu.”

“Não”, ele respondeu. “Eu parei de trair a mim mesmo.”

O presidente do conselho se levantou, sério.

“Diante dessas provas, proponho a remoção imediata de qualquer vínculo societário com os envolvidos, e o acionamento das autoridades competentes.”

Ninguém discordou.

Vanessa tentou correr até mim, mas dois seguranças a impediram.

“Você vai se arrepender disso”, ela gritou. “Eu ainda te amo, seu idiota!”

“Não”, eu disse, calmamente. “Você amava o que eu representava. E isso, você acabou de perder.”

Ela foi retirada da sala, gritando coisas que já não me atingiam mais.

A mãe dela foi levada logo em seguida, sob custódia policial, para prestar depoimento sobre o carro.

Restava só Daniel, sentado, encolhido, esperando meu julgamento.

“Você vai me processar também?” ele perguntou.

“Vou deixar a Justiça decidir isso”, respondi. “Mas quero que você saiba de uma coisa: a parte mais triste de tudo isso não foi Vanessa. Foi você. Quinze anos de amizade por dinheiro que nem chegou a receber.”

Ele não conseguiu responder.

Fechei a pasta, respirei fundo, e olhei para o fundo da sala, onde Clara estava, discreta como sempre, observando tudo de longe.

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