Chapter 4
Levei o sapatinho rosa até Ray na mesma manhã.
— Preciso de tudo sobre uma mulher desaparecida ligada ao Victor Kane, há dois anos — falei. — Nome provável: irmã de Claire Bennett.
Ray demorou quarenta minutos para ligar de volta, e quando ligou, sua voz estava diferente. Mais séria. Mais cuidadosa.
— Adrian, o nome dela era Sarah Bennett. Vinte e três anos na época. O caso foi arquivado como fuga voluntária, mas tem uma coisa estranha.
— O quê?
— O detetive que fechou o caso foi demitido seis meses depois por “conduta inadequada”. E adivinha quem pagou a fiança dele quando ele foi preso por outro motivo um ano depois?
Meu estômago revirou antes mesmo da resposta.
— Victor Kane.
— Victor Kane.
Fechei os olhos.
— Ele comprou o silêncio da polícia.
— Parece que sim. E tem mais uma coisa que você precisa saber.
— Fala.
— O contrato que ele assinou com você. Descobri quem indicou o seu nome pra ele como “parceiro em potencial”.
Uma pausa pesada.
— Foi o Michael.
O chão pareceu se mover sob meus pés.
— O Michael Grant? Meu médico?
— Ele e Victor Kane são sócios numa clínica particular há três anos, Adrian. Uma clínica que, segundo alguns registros bem escondidos, também trata “casos delicados” para famílias que preferem que certos… incidentes… nunca cheguem à polícia.
Larguei o telefone na mesa com mais força do que pretendia.
Michael. O homem que tinha acabado de salvar a vida de Claire na noite anterior. O homem que eu deixei entrar no quarto onde Lily dormia.
Corri até a ala médica da propriedade, onde Michael ainda estava checando os sinais vitais de Claire.
— Saia do quarto — falei, a voz baixa e perigosa.
Michael ergueu os olhos, confuso.
— Adrian?
— Agora.
Ele se levantou devagar, as mãos abertas.
— O que está havendo?
— Você e Victor Kane. Uma clínica. Três anos de sociedade.
O rosto de Michael perdeu toda a cor.
— Não é o que você está pensando.
— Então me explica.
Claire, ainda deitada, olhava entre nós dois com puro terror.
— Ele me contatou há um ano — Michael disse, a voz tremendo. — Disse que precisava de alguém “de confiança” trabalhando perto de você. Ofereceu dinheiro que eu… que eu precisava, Adrian. Minha filha estava doente, os tratamentos custavam…
— Você o colocou na minha mesa de negociação.
— Eu não sabia que ele ia atrás de uma criança! Juro por Deus que não sabia disso.
— Mas sabia que ele tinha um lado sujo.
Michael abaixou a cabeça.
— Sabia que ele tinha segredos. Não sabia até onde iam.
— Foi você que colocou o sedativo na Claire.
— Não! — Michael ergueu os olhos, desesperado. — Isso eu nunca faria. Eu só… passava informações. Onde ela morava. Que ela tinha uma filha pequena. Nada além disso, eu juro.
Claire, com lágrimas escorrendo pelo rosto, olhou para o homem que tinha acabado de salvar sua vida horas antes.
— Você quase me matou de qualquer jeito — ela sussurrou. — Nem precisou ser com as próprias mãos.
O silêncio que caiu sobre o quarto foi cortado por Daniel, correndo pelo corredor.
— Senhor Moretti! Ele está aqui. Victor Kane está no portão principal, exigindo entrar. Diz que é “hora de resolver isso pessoalmente”.
Olhei para Michael, depois para Claire, depois para a porta.
— Tranquem-no numa sala. Ele não sai daqui até eu decidir o que fazer com ele.
Desci as escadas dois degraus de cada vez, o coração batendo com uma calma fria e perigosa que só aparecia quando eu já tinha decidido exatamente o que precisava ser feito.
No portão, através das câmeras, vi Victor Kane pela primeira vez fora daquela sala de reuniões impecável. Sem terno. Sem sorriso educado. Só um homem parado na chuva, encarando as câmeras como se soubesse exatamente que eu estava do outro lado.
— Abram o portão — falei.
— Senhor? — Marco hesitou.
— Abram. Mas ele entra sozinho, desarmado, e sob a mira de cada arma que temos.
Cinco minutos depois, Victor Kane estava parado no meu próprio hall de entrada, pingando água no mármore, olhando ao redor como se avaliasse quanto valia cada coisa que via.
— Bonita casa, Moretti — ele disse. — Pena que abriga coisas que não são suas.
— Ela não é sua também.
Victor sorriu, um sorriso fino e frio.
— Ela é minha filha. E a mãe dela é apenas um detalhe que se resolve de um jeito ou de outro.
Foi nesse exato momento que Claire apareceu no topo da escada, Lily escondida atrás dela, e gritou uma única palavra que mudou tudo.
— Sarah!
Victor congelou.
— O que você disse?
— Onde está minha irmã, Victor? — Claire desceu um degrau, a voz tremendo mas firme. — Onde está a Sarah?
O rosto de Victor Kane, pela primeira vez desde que entrou naquela casa, perdeu completamente a máscara de controle.
