Às 00h03, três batidas leves soaram na porta do meu quarto, dentro de uma propriedade vigiada como uma fortaleza.

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Chapter 2

Claire abriu os olhos às 3h40 da manhã.

O quarto estava em silêncio, só o bipe suave do monitor que Michael tinha trazido. Lily estava enrolada numa poltrona ao lado da cama, finalmente dormindo, ainda agarrada ao coelho de pelúcia.

Eu estava sentado numa cadeira no canto, esperando.

— Onde… — Claire tentou se sentar, mas o corpo não obedeceu direito. — Onde está minha filha?

— Aqui do lado. Dormindo. Ela está bem.

Claire virou a cabeça devagar e viu Lily. Alguma coisa em seu rosto relaxou, só um pouco.

— Você é o senhor Moretti.

— Sou.

— Por que eu estou… — ela olhou para o soro no braço, para o quarto que não era o dela. — O que aconteceu comigo?

— Foi isso que eu ia te perguntar.

Ela fechou os olhos com força, como se estivesse tentando juntar os pedaços de uma noite que tinha se partido ao meio.

— Eu cheguei em casa com dor de cabeça. Fiz um chá. Depois… nada. Só escuro.

— Havia um sedativo no seu sangue, Claire.

Os olhos dela se abriram na hora.

— Isso é impossível. Eu não tomo remédio nenhum.

— Eu sei. É por isso que estou preocupado.

Ela ficou em silêncio por um longo tempo, olhando para as próprias mãos.

— Ele te achou — eu disse. Não era pergunta.

Claire levantou os olhos, e pela primeira vez desde que a conheci, oito meses de fachada quieta e invisível desmoronaram diante de mim.

— Como você sabe o nome dele?

— Sua filha me contou.

— Ela não devia saber esse nome.

— Pois ela sabia. E sabia que não podia dizer.

Claire levou a mão trêmula ao rosto.

— Eu tentei protegê-la de tudo isso. Troquei de cidade três vezes em dois anos. Troquei meu sobrenome. Consegui esse emprego porque pensei que, atrás desses portões, dessas câmeras, dessa segurança toda… ninguém conseguiria chegar perto dela.

— Quem é Victor Kane pra você?

Ela hesitou tanto tempo que pensei que não fosse responder.

— O pai dela.

O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer arma que eu já tinha visto naquela casa.

— Ele não sabe que ela é dele — Claire continuou, a voz quebrando. — Ou melhor… ele sabe. Mas nunca quis ser pai de verdade. Ele só quer ela como… como uma peça. Um jeito de controlar alguma coisa que nem me contou o que é.

— Que tipo de peça?

— Não sei ao certo. Só sei que, três meses atrás, ele apareceu na porta do meu antigo apartamento e disse que “as coisas tinham mudado” e que agora ele “precisava dela por perto”.

Minha mandíbula travou.

— E você fugiu.

— Corri a noite inteira com ela no colo. Não durmo direito desde então.

Lily se mexeu na poltrona, resmungou alguma coisa no sono, e voltou a ficar quieta. Claire olhou para a filha como se cada segundo de sono dela fosse um milagre roubado.

— Ele descobriu que trabalho aqui — ela disse. — Foi por isso que fiz aquele chá, foi por isso que “dormi” tão profundo que nem ouvi minha filha gritando meu nome. Alguém entrou naquele apartamento essa noite, senhor Moretti. Alguém que sabia exatamente o que colocar na minha xícara.

Eu me levantei.

— Ninguém entra na minha propriedade sem que eu saiba, Claire.

— Você não conhece o Victor Kane.

— Na verdade, conheço — eu disse, e vi o rosto dela empalidecer ainda mais. — Sentei à mesa com ele há três dias. Negócios. Ele sorriu, apertou minha mão e mentiu na minha cara sobre um contrato de dez milhões de dólares.

Claire arregalou os olhos.

— Ele trabalha… com você?

— Não. Mas está tentando entrar no meu território. E agora eu entendo por quê.

Foi então que meu celular vibrou. Uma mensagem, número desconhecido.

*”Ela é minha, Moretti. A garota volta comigo esta semana, com ou sem a mãe.”*

Mostrei a tela para Claire. Ela levou a mão à boca, os olhos cheios de lágrimas.

— Ele sabe que ela está aqui.

— Ele sabe — confirmei, guardando o celular. — E agora ele também sabe que eu sei.

Lily escolheu aquele exato momento para abrir os olhos, ainda sonolenta, e perguntar com uma voz pequena:

— A mamãe já acordou?

Claire estendeu os braços trêmulos, e Lily correu para eles, o coelho de pelúcia caindo no chão sem que ninguém notasse.

Eu me virei para a janela, olhando para o jardim escuro lá fora, e pensei em cada homem que já tinha subestimado o alcance da minha propriedade.

Victor Kane estava prestes a descobrir o erro que cometeu.

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