Chapter 3
Às sete da manhã, eu já tinha reunido meus três homens de maior confiança na sala de segurança.
Daniel controlava as câmeras. Marco cuidava dos portões. E Ray, meu advogado particular há doze anos, estava do outro lado da linha, ainda de pijama, xingando baixinho enquanto ligava o notebook.
— Preciso de tudo que existir sobre Victor Kane — eu disse. — Registros, processos, filhos, ex-mulheres, dívidas, sócios. Tudo.
— Já estou nisso — Ray respondeu. — Mas Adrian, tem uma coisa que você precisa saber antes de continuar essa guerra.
— Fala.
— O contrato que vocês assinaram há três dias. Aquele dos dez milhões.
— O que tem ele?
— Tem uma cláusula de exclusividade que amarra metade do seu porto ao nome dele pelos próximos cinco anos. Se ele quebrar o acordo agora, alegando “quebra de confiança” da sua parte, ele pode processar você e travar suas operações por meses.
Fechei os punhos.
— Ele nunca quis fazer negócios comigo.
— Não — Ray concordou. — Ele queria um jeito de chegar perto de você sem levantar suspeita. E funcionou. Ele sentou à sua mesa, apertou sua mão, e ninguém questionou por que um homem desconhecido de repente queria fazer parceria com o Adrian Moretti.
Foi Daniel quem quebrou o silêncio que se seguiu.
— Senhor, tem um carro parado do lado de fora do portão principal há vinte minutos. Placa sem registro no sistema.
Corri até a tela.
Um sedã preto, vidros escuros, parado exatamente na curva onde as câmeras da rua tinham um ponto cego. Alguém sabia onde ficavam os pontos cegos da minha própria segurança.
— Isso não é coincidência — falei. — Alguém passou informação pra ele.
— Um funcionário? — Marco perguntou.
— Ou alguém de dentro do meu próprio negócio.
Fui até o quarto de hóspedes onde Claire e Lily estavam. Encontrei Claire de pé, olhando pela janela, os braços cruzados com força ao redor do corpo, como se estivesse tentando se manter inteira.
— Ele está lá fora, não está? — ela perguntou sem se virar.
— Um carro. Não confirmado.
— Ele nunca vem sozinho na primeira vez. Ele manda alguém pra “checar o terreno”.
— Você já viu isso acontecer antes?
Claire assentiu devagar.
— Em Milwaukee. Fiquei três semanas pensando que estava segura. Aí um carro ficou parado perto da escola da Lily por dois dias. No terceiro dia, ele mesmo apareceu no meu trabalho.
— E dessa vez ele não vai chegar nem perto do portão.
Ela finalmente se virou para mim, os olhos vermelhos de exaustão e medo misturados.
— Por que você está fazendo isso? Eu sou só uma empregada da sua casa.
A pergunta me pegou de surpresa.
— Porque uma criança bateu na minha porta às meia-noite pedindo ajuda — respondi. — E porque homens como Victor Kane só existem porque ninguém nunca disse “não” alto o suficiente.
Claire abriu a boca para responder, mas foi interrompida por Lily, que entrou correndo no quarto, ainda de pijama.
— Mr. Adrian! Tem um homem no jardim!
Meu sangue gelou.
— Onde?
— Perto da árvore grande. Ele estava olhando pra minha janela.
Corri para fora do quarto gritando ordens. Em menos de um minuto, Marco e dois seguranças varreram cada centímetro do jardim leste.
Encontraram pegadas frescas na terra molhada, perto do muro sul. E um único objeto deixado de propósito, apoiado contra a árvore como uma mensagem.
Um sapatinho infantil rosa. Não era de Lily.
Claire, ao ver o objeto pela janela, caiu de joelhos.
— Não pode ser — ela sussurrou.
— Claire, de quem é esse sapato?
Ela levantou os olhos para mim, tremendo dos pés à cabeça.
— Da minha irmã.
— Sua irmã?
— Ela desapareceu há dois anos. Depois que se envolveu com o Victor. Todo mundo disse que ela tinha fugido pra outro estado.
Encarei o pequeno sapato rosa deitado na grama, e entendi, pela primeira vez, que essa história era muito mais antiga e muito mais suja do que eu tinha imaginado.
— Ele não está só atrás da Lily — falei baixo, mais para mim mesmo do que para Claire.
— Não — ela concordou, a voz reduzida a um fio. — Ele está mandando um recado. Está dizendo que sabe fazer pessoas desaparecerem, e que pode fazer de novo, bem debaixo do seu nariz, dentro da sua própria casa.
