Eu era uma garçonete falida com um aviso de despejo na bolsa quando uma menina de seis anos, agonizando, me entregou o celular dela dentro de uma garagem deserta em Detroit.

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Chapter 3

De manhã, o cheiro de café forte acordou Rue antes mesmo do sol entrar pela cortina pesada do quarto.

Ela desceu as escadas hesitante, ainda com a roupa emprestada que a governanta tinha deixado dobrada na cadeira.

Encontrou Harlan sentado sozinho numa sala com paredes de livros, um laptop aberto e uma xícara intocada esfriando ao lado dele.

— Dormiu bem? — ele perguntou, sem levantar os olhos da tela.

— Melhor do que esperava, considerando as circunstâncias.

— Belle perguntou por você três vezes hoje de manhã.

Alguma coisa no peito de Rue apertou de um jeito que ela não soube explicar.

— Ela está bem?

— Estável. O cardiologista chega ao meio-dia para reavaliar a medicação.

Harlan finalmente fechou o laptop e olhou para ela.

— Eu investiguei a senhorita essa noite.

Rue sentiu o sangue gelar.

— Investigou?

— Rue Callaway, vinte e seis anos, garçonete no Sullivan’s Diner há dois anos, aviso de despejo emitido há onze dias, sem família próxima em Detroit, mãe falecida, pai desconhecido.

Cada palavra caiu como uma pedra.

— Isso é… extremamente invasivo.

— Eu não confio em coincidências, Srta. Callaway. Principalmente quando envolvem minha filha.

— Então descobriu que eu sou só uma garçonete falida que estava no lugar errado, na hora certa, pra variar.

— Descobri que a senhorita está afundada em dívidas, sem apoio nenhum, e ainda assim entregou seu próprio casaco pra uma criança estranha no meio do frio.

Ele se levantou, caminhando até a janela.

— Isso me diz mais sobre seu caráter do que qualquer relatório.

Rue não soube o que responder.

— Sente-se — ele disse. — Precisamos conversar sobre a babá.

Ela se sentou, tensa.

— Marisol trabalhava pra mim há três anos. Nunca tinha falhado antes.

— E agora?

— Agora descobri que ela recebeu uma ligação às 23h30 de ontem. Um número descartável. Minutos depois, ela “precisou sair rapidinho”.

O estômago de Rue revirou.

— Alguém a tirou de perto da Belle de propósito.

— Exatamente.

— Mas por quê?

Harlan se virou, o rosto duro como pedra.

— Porque tem gente nessa cidade que adoraria ver algo acontecer com a minha filha, só pra me atingir.

Um silêncio pesado tomou a sala.

— E agora que a senhorita está envolvida — ele continuou, mais baixo — essas pessoas também vão querer saber quem é Rue Callaway.

— Isso soa como uma ameaça.

— Soa como um aviso. Existe diferença.

Naquele momento, um homem de terno escuro entrou sem bater, entregando a Harlan uma pasta fina.

Ele leu em silêncio, a mandíbula travando aos poucos.

— O que é? — Rue arriscou perguntar.

Harlan fechou a pasta.

— A ligação para o celular da Marisol veio de um número que já usei antes… para rastrear meu sócio, Desmond Cole.

— Um sócio seu fez isso?

— Um sócio que jurou lealdade e que, aparentemente, decidiu que minha filha era uma peça de troco.

Rue sentiu um arrepio.

— O que você vai fazer?

Harlan olhou para ela com uma calma gelada que fazia mais medo do que qualquer grito.

— Eu vou descobrir a verdade toda. E a senhorita, Srta. Callaway, vai ficar por perto até eu ter certeza de que está segura.

— Eu não pedi proteção.

— Não. Mas salvou minha filha. E nesse mundo, isso tem um preço que ninguém paga sozinho.

Do andar de cima, uma vozinha fraca chamou:

— Rue! Você ainda tá aqui?

O rosto de Rue se iluminou apesar de tudo.

— Estou, Belle. Já vou até aí.

Harlan observou aquela troca com uma expressão que Rue não conseguiu decifrar — algo entre alívio e alerta.

— Vá vê-la — ele disse. — Mas, Srta. Callaway… não saia dessa casa sem me avisar. Por enquanto, é o lugar mais seguro que existe para a senhorita também.

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