Chapter 4
Os dias seguintes se transformaram numa rotina estranha que Rue nunca imaginou viver.
Ela passava as manhãs ao lado da cama de Belle, inventando histórias bobas pra fazer a menina rir entre uma medicação e outra.
Às tardes, cruzava com Harlan em corredores silenciosos, trocando poucas palavras, mas sempre sentindo o peso do olhar dele.
Até que, numa quinta-feira à noite, tudo mudou.
Um segurança entrou correndo na biblioteca onde Rue lia para Belle.
— Sr. Voss precisa da senhorita agora. É urgente.
O coração de Rue disparou.
Ela encontrou Harlan no escritório, pálido como nunca tinha visto antes, uma foto impressa na mesa à frente dele.
— O que aconteceu?
Ele empurrou a foto na direção dela.
Rue olhou e sentiu o chão sumir.
Era uma foto antiga, desbotada — ela, muito mais nova, ao lado de uma mulher que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo.
— Essa é minha mãe — Rue sussurrou. — Onde você conseguiu isso?
— Ela trabalhou pra Desmond Cole há doze anos. Como contadora.
O mundo de Rue começou a desmoronar peça por peça.
— Isso é mentira. Minha mãe trabalhava numa lavanderia.
— Sua mãe, Srta. Callaway, guardava registros financeiros que provavam que Desmond andava desviando dinheiro da nossa sociedade há anos.
— Isso não tem nada a ver comigo.
— Tem tudo a ver. Porque, duas semanas depois de ameaçar expor ele, sua mãe morreu num “acidente de carro”.
Rue sentiu as pernas fraquejarem.
— Você está dizendo que…
— Estou dizendo que Desmond Cole matou sua mãe para proteger um segredo. E, de alguma forma, doze anos depois, a filha dela apareceu bem na hora certa pra salvar minha filha.
— Isso é loucura. Foi coincidência!
— Eu não acredito em coincidências, já disse isso.
A porta do escritório se abriu com força.
Um homem grisalho, elegante, sorriso fino demais, entrou como se fosse dono do lugar.
— Harlan, meu velho amigo — Desmond Cole disse, os olhos escorregando até Rue. — E essa deve ser a heroína da cidade toda.
— Saia da minha casa, Desmond.
— Vim conversar sobre negócios. E, ao que parece… — ele olhou para Rue de novo, o sorriso morrendo — sobre uns fantasmas do passado também.
O sangue de Rue gelou.
— Você a conhece? — Harlan perguntou, a voz baixa, perigosa.
— Conheço a mãe dela muito bem. Uma pena o que aconteceu com ela.
— Você a matou — Rue disparou, a voz tremendo de raiva e medo.
Desmond riu, um som seco, sem humor nenhum.
— Prove.
— Vou provar — Harlan disse, dando um passo à frente. — E quando eu provar, você vai desejar ter morrido naquele “acidente” no lugar dela.
Desmond ergueu as mãos, ainda sorrindo, e recuou até a porta.
— Vamos ver quem sobrevive dessa história, Harlan. Afinal… você já perdeu uma esposa. Seria uma pena perder também a nova… “protegida”.
A porta bateu atrás dele.
Rue tremia dos pés à cabeça.
— Ele ameaçou você — ela sussurrou.
Harlan se aproximou, segurando os ombros dela com firmeza, os olhos fixos nos dela.
— Ele não vai chegar perto de você. Nem de Belle. Eu prometo isso.
— Como você pode prometer uma coisa dessas?
— Porque, Srta. Callaway… — ele hesitou, como se as palavras custassem caro — porque eu não vou deixar que ele tire mais ninguém de mim.
Pela primeira vez, Rue percebeu que o medo nos olhos dele não era só sobre Belle.
Era sobre ela também.
