Chapter 2
O restaurante inteiro pareceu sumir ao redor da nossa mesa.
— Nia — Luca disse, a voz rouca, quase irreconhecível. — Quem são eles?
Meu filho, o que tinha perguntado quem era aquele homem, olhava agora entre nós dois, sentindo a tensão sem entender completamente de onde vinha.
— Luca, não é hora nem lugar.
— Não é hora nem lugar? — ele repetiu, a voz subindo antes de se controlar, lembrando onde estava. — Nia, eles têm os meus olhos.
Evelyn, ao lado dele, olhava alternadamente pra mim e pras crianças, o rosto perfeitamente maquiado começando a mostrar rachaduras de verdade.
— Luca, o que está acontecendo?
— Não sei ainda — ele respondeu, sem tirar os olhos de mim. — Mas pretendo descobrir agora mesmo.
Minha filha, mais destemida que o irmão, olhou pra ele com a curiosidade direta só das crianças.
— Você conhece minha mãe?
Luca engoliu em seco, os olhos marejando de um jeito que eu nunca tinha visto naquele homem que negociava bilhões sem alterar a expressão.
— Conheço, sim. Há muito tempo.
— Luca — tentei, baixinho, olhando pros meus filhos, pra qualquer curioso ao redor já prestando atenção demais na cena. — Vamos conversar em outro lugar. Não na frente deles.
— Não vou sair daqui sem uma resposta, Nia.
— E eu não vou dar essa resposta na frente dos meus filhos, num restaurante lotado, cercada de estranhos com celular na mão.
Alguma coisa na minha voz — talvez a firmeza, talvez o desespero contido — fez ele recuar, ainda que visivelmente contra a própria vontade.
— Amanhã — ele disse. — No meu escritório. Nove da manhã.
— Não recebo ordens suas há oito anos, Luca.
— Então recebe um pedido. Por favor.
A palavra “por favor” saindo da boca dele foi tão estranha que quase me desarmou completamente.
Evelyn puxou o braço dele, gentil mas firme.
— Luca, vamos. Você está fazendo uma cena.
Ele não se moveu imediatamente, os olhos ainda presos nos meus filhos, como se estivesse tentando memorizar cada traço, cada semelhança, antes que a realidade tivesse chance de escapar de novo.
— Que idade eles têm? — ele perguntou, a voz quase quebrando.
Hesitei, sabendo que a resposta ia confirmar tudo antes mesmo de qualquer teste.
— Sete anos.
Vi ele fazer a conta na cabeça, os olhos fechando por um segundo quando o resultado bateu.
Sete anos atrás era exatamente a época do nosso divórcio.
— Amanhã — ele repetiu, a voz agora um sussurro rouco. — Por favor, Nia.
Ele se virou e saiu, praticamente arrastando Evelyn, que lançou um último olhar confuso e magoado na minha direção antes de desaparecer pela porta.
Minha filha me olhou, séria demais pra uma criança de sete anos.
— Mãe, aquele homem parecia triste.
— Ele está processando uma surpresa grande, amor.
— Que surpresa?
Olhei pros dois rostinhos idênticos aos olhos de Luca Moretti, sentindo o peso de sete anos de decisões desabando de uma vez só sobre mim.
— Vou contar pra vocês em breve. Prometo.
