Chapter 2
O telefone continuou vibrando na minha mão. Precisamos conversar. Agora. Três palavras, e já dava pra sentir o desespero por trás delas.
— Sra. Hartwell? — a voz de Gerald Finch ainda estava na linha, esperando.
— Estou aqui — eu disse, tentando manter a firmeza. — O senhor disse “revisão completa dos bens”. O que isso significa exatamente?
— Significa que seu marido, ou o advogado dele, descobriu algo nas últimas horas. Algo que os fez agir rápido demais para ser coincidência.
Meu estômago se apertou. — O senhor acha que ele sabe sobre a Alderton Global?
— Eu acho — disse Finch, com a calma de quem já tinha visto esse tipo de coisa antes — que a senhora devia vir ao meu escritório hoje. Antes de falar com o Sr. Hartwell. Antes de qualquer coisa.
Anotei o endereço num pedaço de papel com mão trêmula, mas não de medo. De outra coisa. Algo que eu não sentia havia anos.
Controle.
Desliguei o telefone bem na hora em que ele voltou a vibrar — Edmund, de novo. Dessa vez deixei tocar até parar.
Cheguei ao escritório de Finch às nove da manhã. Ficava num prédio antigo de tijolos, no centro de Hartford, com uma placa discreta na porta: Finch & Associados — Consultoria Patrimonial.
Gerald Finch era um homem de uns setenta anos, óculos de aro fino, terno impecável mas fora de moda, como se o tempo tivesse parado nele desde os anos oitenta. Ele se levantou quando entrei.
— A senhora tem os olhos dele — disse, olhando pra mim como quem reconhece um fantasma. — Do seu pai.
— O senhor conhecia meu pai de verdade? Não só o… consertador de relógios?
Um sorriso triste cruzou o rosto de Finch. — Eu conheci George Alderton, fundador e único dono da Alderton Global Holdings, por quarenta e um anos. O relojoeiro era só o disfarce que ele escolheu depois que perdeu sua esposa. Sua mãe.
Senti um nó na garganta. — Por que ele nunca me contou?
— Porque ele tinha medo — disse Finch, se sentando de novo, as mãos entrelaçadas sobre a mesa. — Medo de que o dinheiro mudasse a senhora. Medo de que atraísse gente errada. E, com todo respeito, Sra. Hartwell… ele não estava enganado.
As palavras pairaram no ar entre nós.
— O senhor está falando do Edmund.
— Estou falando de qualquer pessoa que só descobre o valor de alguém depois de descobrir o valor da conta bancária dela.
Fiquei em silêncio por um momento, deixando aquilo se assentar.
— O que exatamente eu herdei?
Finch abriu uma pasta grossa sobre a mesa. — Controle acionário majoritário. Sessenta e sete por cento da Alderton Global Holdings. Isso inclui participações em imóveis comerciais, uma rede de logística no litoral leste, e investimentos que seu pai administrou pessoalmente até os últimos meses de vida.
— Três bilhões e trezentos milhões — sussurrei, ainda sem acreditar completamente no som daquelas palavras saindo da minha própria boca.
— Esse é o valor atual. Pode ser mais, na verdade, dependendo de como o mercado reagir quando a notícia se tornar pública.
— E ela vai se tornar pública?
Finch tirou os óculos e limpou as lentes devagar, um gesto que parecia comprar tempo. — Já está se tornando. O escritório de advocacia do seu marido protocolou um pedido de revisão de bens conjugais hoje de manhã, antes mesmo do divórcio ser finalizado no cartório. Isso significa que alguém, de algum jeito, farejou alguma coisa.
Meu celular vibrou de novo. Dessa vez era uma mensagem de Thomas, nosso filho.
Mãe, o pai me ligou agora chorando. Disse que cometeu o maior erro da vida dele. O que está acontecendo?
Mostrei a tela para Finch. Ele leu e balançou a cabeça devagar, sem surpresa nenhuma.
— Isso não vai ser a última vez que ele vai chorar essa semana, Sra. Hartwell.
Guardei o celular na bolsa. — O que o senhor recomenda que eu faça?
— Recomendo que a senhora não atenda o telefone dele. Recomendo que assine os documentos que vou preparar, transferindo formalmente o controle pro seu nome antes que qualquer advogado consiga arrastar isso pra dentro da partilha do divórcio. E recomendo — ele fez uma pausa, olhando direto pra mim — que a senhora decida, agora, que tipo de mulher vai ser a partir de hoje.
Olhei pela janela do escritório, pra rua movimentada lá embaixo, pras pessoas passando sem saber que a vida de uma delas tinha acabado de virar de cabeça pra baixo.
— Eu já decidi — eu disse.
Finch sorriu pela primeira vez, um sorriso pequeno, quase orgulhoso. — Seu pai disse a mesma frase, com o mesmo tom, na primeira vez que sentou nessa cadeira, há quarenta e um anos.
Assinei os primeiros papéis ali mesmo. Cada rabisco da caneta parecia mais leve que o anterior, como se eu estivesse me soltando de alguma coisa, camada por camada.
Quando saí do escritório, eram quase meio-dia. E foi então que eu o vi.
Edmund, encostado no meu carro, sem gravata, os olhos vermelhos, parecendo dez anos mais velho do que na noite anterior.
— Cece — ele disse, a voz rachada. — Precisamos conversar. Por favor.
Fiquei parada na calçada, a bolsa apertada contra o corpo, olhando pro homem que vinte e quatro horas antes tinha me chamado de “complicada” demais pra ser amada.
— Sobre o quê, Edmund? — perguntei, com uma calma que parecia assustar até a mim mesma. — Sobre a Vivien? Ou sobre os três bilhões que você descobriu que eu tenho?
