No casamento da minha cunhada, meu marido deu a ordem para a garçonete: “Não sirva nada pra ela. Ela não faz parte da nossa família.”

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Chapter 3

Eu passei o fim de semana inteiro trancada em casa, com xícaras de café frio espalhadas pela mesa e uma pilha de documentos que Daniel Reeves tinha me mandado por e-mail.

Contratos. Balanços. Movimentações bancárias da Carter Freight Holdings dos últimos três anos.

Eu sou contadora. Passei dez anos revisando números pros outros. Agora, pela primeira vez, eu estava revisando os números da minha própria vida.

E nada fechava.

A empresa registrava prejuízo havia dois anos seguidos. As contas correntes estavam praticamente zeradas, exatamente como Robert tinha dito no microfone. E, mesmo assim, o casamento de Ashley tinha custado, segundo a nota do buffet que Daniel conseguiu, quase duzentos mil dólares.

De onde tinha saído esse dinheiro?

Fiquei até tarde da noite de sábado cruzando planilhas, até encontrar uma conta que eu nunca tinha visto antes.

“Carter Logistics Solutions LLC.”

Não era a empresa principal. Era uma outra, menor, aberta há um ano e meio, com um único sócio administrador: Michael Carter.

Liguei pra Daniel na hora, mesmo sabendo que era quase meia-noite.

“Achei uma segunda empresa”, eu disse, sem nem cumprimentar. “Carter Logistics Solutions.”

Houve um silêncio do outro lado da linha.

“Rachel, me manda o número de registro agora.”

Cinco minutos depois, ele me ligou de volta, a voz diferente, mais séria.

“Essa empresa recebeu quase quatrocentos mil dólares em transferências da Carter Freight Holdings nos últimos dezoito meses. Classificadas como ‘serviços de consultoria logística’.”

“E o que isso significa?”

“Significa que Michael pode estar desviando dinheiro da empresa principal, através de uma empresa fantasma que ele controla sozinho. E, como trinta e quatro por cento das ações agora são suas, tecnicamente a senhora é uma das prejudicadas por esse desvio.”

Eu me lembrei da noite do casamento. Michael, com aquele terno novo, o Rolex que ele tinha comprado “de segunda mão, promoção”, segundo ele.

Nada daquilo tinha sido promoção.

Na segunda-feira de manhã, recebi uma ligação de um número que eu reconheci: Ashley.

“Rachel, por favor, precisamos conversar”, ela disse, a voz tremendo, bem diferente da mulher que tinha rido de mim na semana anterior.

Aceitei encontrá-la num café perto do centro, mais por curiosidade do que por boa vontade.

Ela chegou sem maquiagem, os olhos inchados.

“Eu não sabia de nada disso, Rachel. Juro.”

“Não sabia do quê, exatamente?”

Ela hesitou, mexendo o café sem beber.

“Da empresa que o Michael abriu. Nem que ele ia te expulsar da casa. Eu só sabia que a mamãe queria você fora da família há anos.”

“E o casamento? Sabia de onde saiu o dinheiro?”

Ashley baixou os olhos.

“O Michael disse que ia ‘resolver’. Que tinha um jeito de conseguir o dinheiro rápido. Eu não perguntei como.”

Fez-se um silêncio pesado entre nós.

“Tem mais uma coisa”, ela disse, quase sussurrando. “A Natalie. O teste de gravidez que ela mostrou pra você.”

Meu coração acelerou.

“O quê?”

“Eu vi ela comprando dois testes diferentes na farmácia, semanas atrás. Um deu negativo. Ela usou o outro, o positivo, na sua frente.”

Eu fiquei olhando pro copo de café esfriando na minha frente, tentando processar tudo aquilo.

Dez anos. Eu tinha dado dez anos da minha vida pra um homem que desviava dinheiro da própria empresa, casado com uma mulher que talvez estivesse fingindo uma gravidez pra justificar um flagrante marcado.

“Por que está me contando isso agora, Ashley?”

Ela finalmente levantou os olhos pra mim.

“Porque a mamãe está planejando alguma coisa pra sexta-feira. Uma reunião com o conselho da empresa. E ela quer te tirar das ações antes que você descubra o que eu acabei de te contar.”

Eu me levantei da mesa, com uma calma que eu mesma estranhei.

“Obrigada, Ashley.”

Liguei pra Daniel do estacionamento.

“Precisamos estar naquela reunião de sexta. E precisamos levar tudo o que temos sobre a Carter Logistics Solutions.”

“Rachel, se isso for confirmado, Michael pode responder por fraude e apropriação indevida. E, com o seu percentual de ações, a senhora tem o direito legal de exigir uma auditoria completa antes de qualquer decisão do conselho.”

Pela primeira vez em dez anos, eu não estava implorando por um lugar na mesa.

Eu estava me sentando nela.

E, dessa vez, ninguém ia tirar meu prato.

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