Quatro vezes, numa única noite, Ethan quase perdeu o controle.

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Chapter 2

O hospital cheirava a álcool e luzes fluorescentes zumbiam baixinho sobre suas cabeças. Ethan andava de um lado pro outro no corredor, o paletó ainda amassado do restaurante, esperando alguém, qualquer pessoa, aparecer com respostas.

Uma médica finalmente saiu da sala de exames, os olhos correndo pela prancheta antes de erguer o olhar pra ele.

— O senhor é o… marido dela?

— Não — disse Ethan, rápido demais talvez. — Um conhecido. Eu a trouxe.

A médica ergueu uma sobrancelha, mas não questionou. — Ela teve uma crise renal aguda. Provavelmente estava ignorando os sintomas há dias. Desidratação severa, além disso. Vamos mantê-la em observação essa noite.

— Ela vai ficar bem?

— Vai. Mas ela precisava de alguém que percebesse a tempo. — A médica olhou pra ele com uma curiosidade discreta. — A senhora teve sorte de desmaiar na frente de quem se importou o suficiente pra agir rápido.

Ethan não respondeu. Não sabia explicar, nem pra si mesmo, por que tinha agido daquele jeito.

Quando finalmente o deixaram entrar, Maya estava sentada na cama do hospital, o soro pingando devagar no braço, os cabelos escuros caindo soltos sobre os ombros. Ela parecia menor ali, mais frágil do que no restaurante.

— Você não precisava ter ficado — disse ela, a voz rouca.

— Eu sei — respondeu Ethan, puxando a cadeira ao lado da cama e sentando, algo que ele quase nunca fazia por ninguém.

Ela olhou pra ele com uma mistura de desconfiança e curiosidade. — As pessoas como você geralmente não ficam.

— Pessoas como eu?

— Bilionários. CEOs. Homens que aparecem no jornal financeiro. — Ela deu um sorriso fraco. — Eu sei quem você é, Sr. Vale. Todo mundo em Nova York sabe.

— E você não me reconheceu quando desmaiou na minha frente?

— Eu estava meio ocupada tentando não morrer — ela disse, e ele riu, surpreso consigo mesmo por rir tão facilmente.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Ethan observou o soro pingando, o peito dela subindo e descendo devagar.

— Por que estava lá? — ele perguntou finalmente. — No restaurante. Não parecia o tipo de lugar que você frequenta.

Ela hesitou, os dedos brincando com a borda do lençol. — Eu trabalho lá. Ou trabalhava. Sou garçonete no turno da noite. Peguei um turno extra hoje porque precisava do dinheiro.

— E ignorou os sintomas porque não podia se dar ao luxo de faltar.

Não era pergunta. Era constatação. Ela desviou o olhar, envergonhada.

— Eu não preciso da sua pena.

— Não é pena — disse Ethan, e havia algo na voz dele que fez Maya olhar de volta pra ele. — É respeito. A maioria das pessoas que conheço desmoronaria com um décimo do que você provavelmente enfrenta todo dia.

Ela ficou em silêncio por um momento, estudando o rosto dele como se procurasse a mentira escondida em algum canto. Não encontrou nenhuma.

— Por que você ficou, de verdade? — perguntou ela. — Você podia ter mandado seu motorista, pago a conta do hospital de longe, e voltado pro seu jantar importante.

Ethan pensou na pergunta por mais tempo do que pretendia.

— Porque ninguém nunca me pediu tão pouco quanto você — disse ele finalmente. — Você só pediu pra dor parar. Não pediu meu dinheiro. Não pediu meu nome. Isso é raro no meu mundo.

Maya baixou os olhos, os dedos ainda brincando nervosamente com o lençol. — Meu mundo não tem espaço pra coisas raras, Sr. Vale. Só tem espaço pra sobreviver até o próximo turno.

— Chama-me de Ethan.

— Não vamos nos ver de novo depois de hoje — disse ela, mas a voz não soou tão convicta quanto as palavras.

— Isso é uma pergunta ou uma afirmação?

Ela não respondeu. Em vez disso, fechou os olhos, o cansaço finalmente vencendo.

Ethan ficou ali a noite inteira, na cadeira desconfortável do hospital, olhando pra uma mulher que ele tinha conhecido havia poucas horas e que, de alguma forma, já tinha conseguido furar uma armadura que ninguém mais tinha tocado em anos.

De manhã, quando ela acordou, encontrou um bilhete na mesinha ao lado da cama, junto com um cartão.

Sua conta do hospital está paga. Seu emprego no restaurante não existe mais — não porque você foi demitida, mas porque acabei de comprar o restaurante essa madrugada. Ligue pro número no cartão quando estiver pronta pra conversar sobre o que vem a seguir. — E.

Maya segurou o cartão com as duas mãos, o coração batendo descontroladamente, sem saber se aquilo era o gesto mais gentil ou mais assustador que alguém já tinha feito por ela.

Foi então que a porta do quarto se abriu, e não era uma enfermeira.

Era uma mulher elegante, de salto alto e um vestido que devia custar mais do que o salário de um mês de Maya, parada na entrada com um sorriso frio nos lábios.

— Então você é a garçonete — disse a mulher, olhando Maya de cima a baixo. — Meu nome é Bianca Wren. E acho que é hora de conversarmos sobre o Ethan.

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