Chapter 1
Uma hora antes de nossa casa se encher de convidados ricos, meu marido esmagou meu rosto contra o espelho do banheiro enquanto a mãe dele assistia calmamente. Depois ele percebeu a luz vermelha fraca piscando dentro do meu bolso e gritou: “O que tem aí dentro?!” Se ele descobrisse aquele dispositivo de emergência federal antes de eu apertar o botão uma última vez, eu não sobreviveria àquela noite. Então fiz a única escolha que me restava — me joguei no chão coberto de vidro estilhaçado, misturado com sangue.
O espelho explodiu antes mesmo do meu cérebro registrar a dor.
Meu reflexo se estilhaçou em dezenas de pedaços afiados enquanto rachaduras corriam pelo vidro, e a luz fluorescente zumbindo no teto fazia tudo parecer frio e irreal.
— Tudo que eu fiz — sussurrei, com o sangue escorrendo pelo rosto — foi perguntar para onde foi seu salário esse mês.
Aquela simples pergunta tinha me custado mais uma surra.
O quarto girou ao meu redor enquanto eu escorregava pelo piso gelado. Os ladrilhos brancos se misturavam com listras vermelhas enquanto Vance ficava de pé sobre mim, respirando com força. A aliança de ouro dele brilhava sob a luz forte, mais como um aviso do que como uma promessa.
— Você me envergonha na minha própria casa? — ele rosnou.
Antes que eu pudesse responder, a mãe dele entrou no banheiro.
Beatrice não se assustou.
Não correu para me ajudar.
Em vez disso, contornou meu corpo sangrando com cuidado, só para o vidro quebrado não arranhar os saltos caros dela.
— Limpa essa nojeira, Vance — ela disse, com puro desprezo. — Os membros do conselho chegam daqui a uma hora. Não temos tempo pra isso.
Um instante depois, o pai dele, Arthur, apareceu na porta, bloqueando em silêncio a única saída. Entregou um copo de uísque para o filho com a maior naturalidade, enquanto o gelo tilintava dentro do copo.
— Não deixa ela te tirar do sério — ele disse, dando de ombros, indiferente. — Mulher sempre fica emotiva demais quando envolve dinheiro.
Vance sorriu de canto e tomou um gole devagar.
Foi nesse momento que alguma coisa dentro de mim mudou para sempre.
Eu não estava quebrada.
Não estava derrotada.
Por seis anos, eles confundiram minha paciência com fraqueza. Acreditaram que cada insulto, cada hematoma, cada desculpa tinha me tornado mais fácil de controlar.
Estavam errados.
Dois meses antes, meu irmão mais velho, Marcus, agente federal sênior de uma unidade tática especializada, tinha colocado escondido um pequeno dispositivo de emergência na minha mão.
— Ele não faz barulho nenhum — ele tinha me explicado. — Um clique me avisa. Dois cliques enviam sua localização exata para a nossa equipe. Três cliques significam que a gente arromba a porta na hora. Sem esperar. Sem perguntar nada.
Agora, sentada no meu próprio sangue enquanto Vance explicava orgulhoso como estava “ensinando respeito à esposa dele”, eu enfiei a mão devagar no bolso do meu cardigã.
Meu polegar encontrou o botão de borracha texturizada.
Clique.
Marcus recebeu o alerta.
Clique.
Minha localização e um áudio ao vivo começaram a ser transmitidos direto para um servidor federal seguro.
Então tudo parou.
Uma luz vermelha minúscula piscou uma vez, sob o tecido fino do meu cardigã, confirmando que o sinal tinha sido enviado.
Vance viu.
O sorriso dele sumiu.
Os olhos dele travaram no meu bolso com uma intensidade aterrorizante.
— Que porra tem no seu bolso? — ele exigiu, dando um passo na minha direção. — O que você está escondendo, Sarah?
Todo instinto meu gritava a verdade.
Se ele chegasse até mim antes do terceiro clique…
Eu nunca mais sairia daquele banheiro viva.
Eu tinha menos de um segundo para decidir.
Sem pensar, me joguei para frente, direto nos cacos de vidro cobertos de sangue…
