Chapter 2
Meu corpo bateu no chão coberto de vidro, os cacos cortando minha pele através do tecido fino da roupa, mas naquele instante a dor não importava mais.
O que importava era o terceiro clique.
Meu polegar encontrou o botão de novo, escondido dentro do bolso, e apertei com toda a força que ainda restava em mim.
Clique.
Vance avançou, os olhos cheios de fúria, tentando arrancar o cardigã do meu corpo para descobrir o que eu escondia.
— Me dá isso aqui! — ele gritou, puxando meu braço com violência.
Foi quando a porta da frente da casa explodiu para dentro.
Passos pesados, vozes gritando comandos, o som inconfundível de uma operação tática entrando em movimento.
— POLÍCIA FEDERAL! MÃOS NA CABEÇA! AGORA!
Vance congelou no meio do movimento, ainda segurando meu braço, o rosto passando de fúria para puro choque.
Beatrice deixou cair a taça de vinho que segurava, o som do vidro se espatifando se somando ao caos que já tomava conta da casa.
Arthur tentou recuar em direção à porta do banheiro, mas dois agentes já bloqueavam a passagem, armas apontadas, coletes táticos escuros contrastando com o mármore branco do corredor.
E então, no meio de tudo aquilo, eu vi Marcus.
Meu irmão entrou no banheiro com a arma baixa, mas os olhos varrendo cada detalhe da cena — o espelho quebrado, o sangue no chão, Vance ainda segurando meu braço.
— Solta ela — Marcus disse, a voz mais fria e controlada do que eu jamais tinha ouvido.
Vance hesitou, calculando alguma saída que não existia.
— Isso é um mal-entendido — ele começou. — Minha esposa estava tendo um ataque de histeria, e eu só…
— Solta. Ela. Agora.
Vance largou meu braço como se de repente tivesse percebido o perigo real que representava me machucar na frente de um agente federal armado.
Marcus se ajoelhou ao meu lado imediatamente, os olhos correndo pelo meu rosto, pelo corte na testa, pelos cortes nos braços e pernas causados pelo vidro.
— Sarah. Sarah, olha pra mim.
— Estou bem — sussurrei, embora minha voz tremesse tanto quanto o resto do meu corpo.
— Precisamos de paramédicos aqui, agora! — ele gritou para os outros agentes, sem tirar os olhos de mim nem por um segundo.
Beatrice, recuperando um pouco da compostura, tentou usar o tom autoritário que sempre funcionava com todo mundo ao redor dela.
— Vocês não têm ideia de quem é essa família. Meu marido conhece o prefeito pessoalmente. Isso vai ser resolvido rapidamente, e vocês três vão se arrepender de…
— Beatrice Whitfield — um dos agentes interrompeu, lendo de um tablet que segurava —, você está presa por cumplicidade em agressão doméstica e obstrução de uma investigação federal.
O rosto dela desmoronou pela primeira vez.
— Isso é ridículo. Eu não fiz nada além de pedir para limparem uma bagunça.
— A senhora presenciou uma agressão em andamento e não fez nada para impedir. Isso conta, sim.
Arthur tentou argumentar também, citando nomes, cargos, conexões que ele acreditava que ainda pudessem salvá-lo, mas os agentes já o algemavam, ignorando completamente cada ameaça velada que ele tentava fazer.
Vance, por fim, foi o último a ser contido, os pulsos presos atrás das costas enquanto ele ainda gritava meu nome, tentando entender como sua vida perfeita tinha desmoronado em questão de minutos.
Enquanto os paramédicos cuidavam dos meus cortes, sentada numa maca no jardim da mesma casa onde eu tinha sofrido por seis anos, vi os três sendo colocados em viaturas separadas, as luzes vermelhas e azuis iluminando a fachada elegante que sempre escondeu tanta coisa podre por dentro.
— Você está segura agora — Marcus disse, segurando minha mão. — Está tudo gravado. Áudio, hora, tudo. Eles não vão conseguir enterrar isso dessa vez.
Eu deveria ter sentido alívio total.
Mas alguma coisa na forma como Marcus disse “dessa vez” me fez perguntar:
— Como assim, dessa vez? Isso já aconteceu antes?
O rosto do meu irmão ficou sério de um jeito que eu não soube interpretar imediatamente.
— Isso é uma conversa para quando você estiver mais recuperada, Sarah.
— Marcus. Me conta agora.
Ele hesitou, olhando para a casa, para as luzes das viaturas, para o peso do que estava prestes a revelar.
— Durante a investigação preliminar, antes mesmo de hoje, encontramos registros de outro caso. Envolvendo uma mulher que namorou Vance antes de você.
Meu estômago revirou.
— E o que aconteceu com ela?
Marcus não respondeu na hora, e aquele silêncio foi mais assustador do que qualquer resposta poderia ter sido.
