Cinco anos depois que a mulher que eu amava desapareceu sem dizer uma palavra, eu a encontrei parada num supermercado do Tennessee, ao lado de um menininho que era a minha cara.

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Chapter 1

Cinco anos depois que a mulher que eu amava desapareceu sem dizer uma palavra, eu a encontrei parada num supermercado do Tennessee, ao lado de um menininho que era a minha cara. Por um instante, achei que ela tinha me traído, me abandonado, destruído nosso futuro. Mas bastou um olhar para o rosto daquela criança para toda a história que eu acreditava começar a desmoronar.

Por vários segundos, eu simplesmente não consegui respirar.

Lá estava ela.

Hannah.

Parada a menos de três metros de mim, no corredor de cereais de um supermercado nos arredores de Franklin, Tennessee, com uma jaqueta jeans desbotada, comparando duas caixas de cereal como se vivesse a vida mais comum do mundo.

A minha tinha parado ali, cinco anos atrás.

Naquela época, eu tinha acordado numa cama de hospital com as costelas quebradas, um traumatismo craniano e pontos acima da sobrancelha, depois de um acidente de carro grave.

Minha mãe estava sentada ao meu lado, os olhos cheios de lágrimas, evitando me encarar.

— A Hannah foi embora — ela sussurrou. — Pegou o dinheiro que oferecemos e sumiu. Disse que não aguentava mais um dia sequer com uma família que nunca ia aceitá-la.

Uma semana depois, chegou uma carta escrita à mão.

Parecia a letra da Hannah.

Ela escreveu que estava cansada de lutar por nós, cansada de amar alguém cuja família sempre a veria como uma estranha.

Acreditei em cada palavra.

Com o tempo, a dor virou raiva, porque raiva doía menos do que esperança.

Foi então que o menino ao lado dela se virou.

Não devia ter mais que cinco anos.

Cabelo castanho-claro, todo bagunçado.

Olhos verde-acinzentados.

Um aviãozinho de brinquedo apertado com força numa das mãos.

Aí ele sorriu.

E surgiu uma covinha funda na bochecha esquerda.

A mesma que eu via no espelho desde que me entendia por gente.

A caixa de cereal escapou das mãos de Hannah e se espalhou pelo chão.

Nenhum de nós se mexeu.

— Mãe? — o menino perguntou. — Você conhece ele?

Aquela única palavra me atingiu com mais força do que o próprio acidente.

Hannah se abaixou rapidamente para limpar a bagunça.

— Lucas, filho, vem ficar do meu lado.

— Hannah — eu disse.

Minha própria voz me pareceu estranha.

Ela se levantou devagar.

A mulher destemida que eu me lembrava tinha desaparecido.

No lugar dela, havia alguém exausto, desconfiado, carregando anos de dor atrás dos olhos.

— Quantos anos ele tem? — perguntei.

Ela envolveu o menino com um braço, protegendo-o.

— Jake… não aqui.

— Quantos anos ele tem?

— Eu disse que não é aqui.

O menino olhava, nervoso, de um para o outro.

Por um segundo, senti culpa.

Mas olhei de novo para o rosto dele.

Meus olhos.

Meu sorriso.

Minha covinha.

A pergunta escapou antes que eu pudesse me controlar.

— Ele é meu filho?

Todo o sangue sumiu do rosto de Hannah.

Uma senhora por perto, de repente, ficou muito interessada em ler rótulos de sopa enlatada, prestando atenção na nossa conversa.

Hannah percebeu.

Ajoelhou-se ao lado de Lucas e afastou com carinho o cabelo da testa dele.

— Vai pegar aquele biscoito que você gosta — sussurrou. — Fica onde eu possa te ver.

Ele hesitou.

— Você tá bem, mãe?

O sorriso dela tremeu.

— Vou ficar. Pode ir.

Ele se afastou devagar em direção ao corredor seguinte, olhando para trás a cada poucos passos.

No instante em que ele ficou fora de alcance, dei um passo à frente.

— Eu mereço saber a verdade.

Ela soltou uma risada baixa e amarga.

— Engraçado ouvir isso de você.

Meu maxilar travou.

— O que isso quer dizer?

— Você não desaparece por cinco anos e depois chega exigindo respostas como se fosse a vítima.

Encarei-a, sem acreditar.

— Você que me deixou. Acordei no hospital e você tinha sumido.

Os olhos dela se arregalaram, num choque genuíno.

— Eu te deixei?

— Minha mãe me disse que você aceitou o dinheiro e foi embora. Depois mandou uma carta dizendo que nunca mais queria me ver.

A expressão de Hannah mudou por completo.

Ela parecia que o chão tinha sumido debaixo dos pés dela.

— Você… me mandou ir embora — ela sussurrou.

— Eu nunca te mandei ir embora.

Ela balançou a cabeça devagar, os olhos se enchendo de lágrimas.

— Sua mãe foi ao meu apartamento com um cheque… e uma carta escrita com a sua letra.

Um arrepio gelado percorreu meu corpo inteiro.

— Que carta?

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