Chapter 2
Hannah levou a mão à boca, como se as próprias palavras a machucassem outra vez.
— Uma carta com a sua letra, Jake. Sua mãe disse que você tinha pedido para ela entregar, porque não tinha coragem de me olhar nos olhos.
— Isso é mentira — falei, sentindo o corpo todo tremer. — Eu estava internado. Mal conseguia segurar um lápis.
— Foi exatamente isso que ela me disse que você não queria que eu soubesse. Que você tinha se recuperado rápido, que só não queria mais me ver.
Fechei os olhos por um segundo, tentando organizar os pedaços daquilo que continuava não fazendo sentido.
— Hannah, olha para mim. Eu passei três semanas no hospital. Fisioterapia por mais dois meses. Eu não escrevi carta nenhuma.
— Então por que a letra era igual à sua? — a voz dela tremeu, mas os olhos não desviaram dos meus. — Eu reconheci, Jake. Reconheci o jeito que você fazia o “J”.
Um frio subiu pela minha espinha.
Só uma pessoa no mundo conseguia imitar minha letra a ponto de enganar até quem me conhecia bem.
— Minha mãe sempre soube fazer minha letra — falei, quase sem voz. — Desde que eu era criança. Ela assinava minhas notas de recuperação escolar.
Hannah recuou meio passo, como se tivesse levado um soco.
— Você está dizendo que ela forjou a carta?
— Estou dizendo que é a única explicação que faz sentido.
Ela cobriu o rosto com as duas mãos por um instante, os ombros tremendo.
— Cinco anos, Jake. Cinco anos eu achei que você tinha me trocado pela aprovação da sua família. Cinco anos eu criei aquele menino sozinha, contando os trocados para pagar aluguel, porque tinha vergonha demais de pedir ajuda para qualquer pessoa que pudesse contar para vocês onde eu estava.
— Eu teria ido atrás de você — falei, e a raiva na minha voz surpreendeu até a mim mesmo. — Eu teria largado tudo.
— Eu sei disso agora — ela sussurrou. — Só não sabia então.
Lucas apareceu na ponta do corredor, segurando um pacote de biscoitos, olhando para nós dois com uma cautela que nenhuma criança daquela idade deveria ter.
— Mãe, posso pegar esse?
Hannah forçou um sorriso e assentiu, e ele voltou a se afastar, ainda olhando por cima do ombro.
— Eu preciso saber tudo — falei baixinho. — Todos os detalhes. O que a minha mãe disse, o que ela levou, quando isso aconteceu.
Hannah hesitou, os dedos apertando a alça da bolsa.
— Ela apareceu no meu apartamento quatro dias depois do seu acidente. Eu nem sabia direito como você estava, porque ninguém me deixava entrar no hospital.
— Ninguém te deixava entrar?
— A recepção dizia que só familiares podiam visitar. Toda vez que eu ligava, alguém da sua família atendia primeiro e desligava assim que ouvia minha voz.
Senti o estômago revirar.
— E quando ela foi até você…
— Ela entrou, sentou na minha mesa de jantar como se fosse dona da casa, e colocou um cheque na minha frente. Cem mil dólares, Jake. E disse que era isso ou eu nunca mais teria paz enquanto tentasse ficar perto da sua família.
— Cem mil dólares — repeti, a voz falhando.
— Eu rasguei o cheque na cara dela — Hannah disse, e pela primeira vez algo da mulher que eu conhecia voltou aos olhos dela. — Falei que não queria o dinheiro, que só queria você.
— Então o que mudou?
— A carta chegou três dias depois. E dessa vez eu acreditei, porque vinha com coisas que só você saberia. Coisas que a gente tinha conversado sozinhos, no seu quarto, sem ninguém ouvindo.
Meu sangue gelou.
— Isso é impossível. A não ser que…
— A não ser que ela tenha lido suas mensagens — Hannah completou, terminando meu próprio pensamento. — Ou ouvido você falando ao telefone.
Ficamos em silêncio por um momento, o barulho do supermercado continuando ao nosso redor como se nada daquilo estivesse acontecendo.
— Eu preciso ver essa carta — falei. — Você ainda tem ela?
Hannah engoliu em seco, e pela primeira vez desde que a reconheci naquele corredor, evitou meu olhar.
— Eu guardei. Guardei tudo esse tempo, achando que um dia ia precisar mostrar para alguém que não fui eu que fugiu.
— Então me mostra.
— Não é tão simples assim, Jake.
— Por que não?
Ela respirou fundo, e quando finalmente me encarou de novo, havia algo além de mágoa nos olhos dela.
Havia medo.
— Porque tem um nome na assinatura que vai te destruir mais do que você imagina.
