Chapter 3
As palavras dela ficaram suspensas entre nós como uma faca prestes a cair.
— Que nome, Hannah?
Ela olhou para o corredor, verificando se Lucas ainda estava por perto, antes de responder.
— Vanessa Cole.
O nome me atingiu como um soco no peito.
— Isso não é possível.
— Eu também não queria acreditar — Hannah disse, a voz embargada. — Mas está lá, Jake. No rodapé da carta, uma linha dizendo que ela “cuidaria de tudo com sua família a partir de agora”. Como se vocês dois já tivessem um acordo.
Vanessa Cole.
A filha do sócio do meu pai.
A mulher que minha mãe sempre insistiu, de forma nada sutil, que seria “perfeita” para mim.
— Eu nunca tive nada com ela — falei, sentindo a raiva subir pela garganta. — Nunca.
— Eu sei disso agora — Hannah respondeu. — Mas na época, tudo se encaixava perfeito demais. A carta, o dinheiro, o silêncio da sua família. Parecia um plano.
Peguei o celular dela quando ofereceu, e ali estava: uma foto antiga da carta, o papel amassado nas bordas de tanto ser dobrado e guardado. Reconheci a letra que imitava a minha, mas também reconheci algo mais.
A caligrafia da assinatura de Vanessa no final.
— Ela sabia escrever igual a mim também? — perguntei, mais para mim mesmo do que para Hannah.
— Não. Ela só assinou o próprio nome. Quem forjou o resto foi outra pessoa.
Minha mente girou, juntando peças que eu tinha ignorado por anos.
Minha mãe visitando o escritório do pai da Vanessa com frequência demais para ser só sobre negócios.
Meu pai comemorando, semanas depois do “desaparecimento” de Hannah, uma “nova parceria” que salvaria a empresa da família.
— Foi uma fusão — sussurrei. — Foi tudo por causa de uma fusão.
Hannah me olhou, confusa.
— A empresa do meu pai estava quase falindo cinco anos atrás — expliquei, sentindo o gosto amargo da verdade na boca. — Se casando com a filha do sócio, ele salvaria tudo. Minha mãe deve ter decidido que eu era a peça que faltava no tabuleiro.
— Então ela te tirou de mim para te vender para uma fusão de negócios — Hannah disse, a voz tremendo entre choque e fúria.
— Eu preciso falar com ela agora.
— Jake, espera.
— Não. Cinco anos, Hannah. Cinco anos da vida do meu filho que eu perdi por causa disso.
Ela segurou meu braço com força.
— Se você for atrás dela sozinho e sem provas, ela vai negar tudo e ainda vai te fazer parecer instável. Eu já vi como sua família lida com quem ameaça os planos deles.
Aquilo me parou.
— O que você quer dizer com isso?
Hannah baixou os olhos, e pela primeira vez percebi o quanto as mãos dela tremiam.
— Depois que rasguei o primeiro cheque, sua mãe voltou. Da segunda vez, não veio sozinha.
— Quem estava com ela?
— O advogado da família. Ele disse que, se eu tentasse “criar problemas” para o casamento arranjado, eles tinham como provar que eu era uma ameaça para você. Disse que bastava uma palavra da família toda no tribunal para eu perder qualquer direito sobre uma criança que ainda nem tinha nascido.
Meu peito apertou com uma dor que não tinha nome.
— Eles ameaçaram tirar o Lucas de você antes mesmo dele nascer?
Ela assentiu, os olhos cheios de lágrimas que finalmente começaram a cair.
— Foi por isso que eu fugi de verdade, Jake. Não foi pelo dinheiro, nem pela carta. Foi porque tive medo de perder meu filho para uma família que já tinha deixado claro o que era capaz de fazer.
Fiquei ali, parado, sentindo o chão do supermercado balançar sob meus pés como se fosse o hospital de novo, cinco anos atrás.
— Eu vou consertar isso — falei, e dessa vez a determinação na minha voz era diferente de tudo que eu tinha sentido até ali. — Vou consertar cada parte disso.
— Como, Jake? Você vai simplesmente bater na porta da sua mãe e exigir a verdade?
— Não vou bater na porta dela.
Peguei meu celular e comecei a discar.
— Vou levar ela até aqui. Até você. Até o neto que ela nunca soube que existia.
Hannah arregalou os olhos.
— Jake, isso pode sair muito errado.
— Já saiu errado o suficiente pelos últimos cinco anos — respondi, o telefone já tocando no ouvido. — É hora da verdade acontecer na frente de todo mundo, sem lugar para se esconder.
Do outro lado da linha, minha mãe atendeu com a voz alegre de sempre, sem imaginar o que estava prestes a desmoronar.
— Jake, querido! Que surpresa boa. Aconteceu alguma coisa?
Respirei fundo, olhando para Hannah, para o corredor onde Lucas brincava distraído com o aviãozinho de brinquedo, sem saber que sua vida inteira estava prestes a mudar.
— Aconteceu, mãe. Eu encontrei a Hannah. E encontrei também o meu filho.
O silêncio do outro lado da linha durou tempo suficiente para confirmar tudo que eu já suspeitava.
