Na noite em que meu marido me chamou de estragada, eu estava de joelhos no chão do banheiro, uma mão segurando o vaso sanitário e a outra pressionada sobre a vidinha minúscula que eu tinha medo demais de acreditar que estava crescendo dentro de mim

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Chapter 1

Na noite em que meu marido me chamou de estragada, eu estava de joelhos no chão do banheiro, uma mão segurando o vaso sanitário e a outra pressionada sobre a vidinha minúscula que eu tinha medo demais de acreditar que estava crescendo dentro de mim. Horas depois, um rei da máfia seguraria minha mão na frente das pessoas mais poderosas de Manhattan e diria: “Eu não me importo com seu marido.”

Do lado de fora do banheiro, Conrad ria numa ligação de negócios.

Não a risada cruel que ele usava quando estávamos sozinhos.

Aquela era a risada pública dele — suave, calorosa, cara. Do tipo que fazia investidores confiarem nele e estranhos o chamarem de cavalheiro.

Limpei a boca e me olhei no espelho.

Aos quarenta e cinco anos, um dia eu imaginei que seria poderosa, estabelecida. Em vez disso, parecia um fantasma usando diamantes.

Por três semanas, eu vinha enfrentando enjoo, tontura, e o mesmo pensamento impossível toda manhã.

E se eu estivesse grávida?

Cinco anos antes, eu tinha carregado um bebê por doze semanas. Tinha imaginado roupinhas pequenas, um quarto de bebê, um futuro que talvez finalmente suavizasse meu marido.

Depois veio o sangramento.

No hospital, Conrad nunca segurou minha mão.

Só ficou me olhando com nojo e disse: — Você nem isso conseguiu fazer direito.

A porta do banheiro se abriu.

— Por que você ainda está aí dentro? — ele exigiu. — O baile da Fundação Mercer começa às sete. Preciso que você esteja apresentável.

— Vou estar pronta.

Os olhos dele percorreram meu corpo como se eu fosse algo defeituoso que ele se arrependesse de ter comprado.

— Veste o vestido vermelho. Aquele que faz parecer que você ainda tem corpo.

As palavras acertaram exatamente onde ficavam as feridas antigas.

— E arruma essa cara — ele acrescentou. — Não preciso que você pareça um caso de caridade que eu peguei na rua.

Depois que ele saiu, fiquei parada por um bom tempo.

Então alguma coisa dentro de mim mudou.

Não era coragem.

Ainda não.

Era raiva.

Por dez anos, eu tinha abandonado minha carreira de consultoria, minhas opiniões, minhas roupas, e quase meu próprio nome, para proteger a imagem de Conrad. Tinha me tornado cada vez menor até quase não sobrar mais nada de mim.

Mas se realmente existisse uma criança dentro de mim, eu não podia deixar que ela aprendesse que amor significava humilhação.

Entrei no closet e afastei o vestido vermelho justo que ele tinha escolhido.

Atrás dele estava pendurado um vestido rosa suave que eu tinha comprado meses antes e nunca tido coragem de usar. O corpete ajustado, a saia fluida, as costas baixas me faziam sentir elegante, em vez de exposta.

Deixei os cachos soltos.

Escolhi minha própria maquiagem.

Quando entrei no corredor, Conrad congelou.

— Que porra é essa?

— Um vestido.

— Eu disse pra você usar o vermelho.

— Eu ouvi.

A mandíbula dele travou.

— Nós vamos discutir isso depois.

Eu sabia o que aquilo significava.

Eu seria punida assim que não houvesse testemunhas.

No baile, Conrad ficou charmoso no instante em que entramos. A mão dele pressionava minhas costas, me guiando entre lustres, políticos, bilionários, e gente cujos segredos valiam mais que as próprias joias.

— Sorri — ele sussurrou.

Por uma hora, obedeci.

Depois ele me abandonou perto das janelas para conversar com um empresário do ramo imobiliário.

Um garçom ofereceu champanhe.

Aceitei uma taça por hábito, depois fiquei olhando para ela.

Eu não devia beber.

Não se a criança fosse real.

— Não bebe.

A voz ao meu lado era baixa e controlada.

Um homem alto, de terno preto, estava parado perto o suficiente para pegar a taça, mas não a tocou. Cabelo escuro, pele morena, feições marcantes, e uma cicatriz cortando uma das sobrancelhas o faziam parecer perigoso sem precisar provar nada.

— Se você não quer isso — ele disse —, não segura só porque alguém espera que você segure.

— Acho que não nos conhecemos.

— Não — ele respondeu. — Você lembraria.

Ele estendeu a mão.

— Luca Moretti.

O nome carregava peso.

Moretti Shipping.

Moretti Holdings.

Dinheiro Moretti.

E por baixo de tudo isso, os sussurros.

Realeza da máfia.

Mantive a mão ao lado do corpo.

— Winnie King.

— Eu sei.

Minha espinha travou.

Antes que eu pudesse perguntar como, Conrad apareceu atrás de mim e apertou meu braço.

— Ela é casada — ele disse, frio.

Os olhos de Luca desceram até a mão de Conrad, depois subiram até meu rosto.

Devagar, ele segurou meus dedos entre os dele.

— Eu não me importo com seu marido.

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