Na noite em que meu marido me chamou de estragada, eu estava de joelhos no chão do banheiro, uma mão segurando o vaso sanitário e a outra pressionada sobre a vidinha minúscula que eu tinha medo demais de acreditar que estava crescendo dentro de mim

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Chapter 2

Conrad puxou o braço de volta como se tivesse levado um choque, mas manteve o sorriso público colado no rosto, do jeito que sempre fazia diante de testemunhas importantes.

— Luca, sempre um prazer — ele disse, a voz melosa demais para ser sincera. — Não sabia que você conhecia minha esposa.

— Ainda não conhecia — Luca respondeu, sem soltar meus dedos. — Estou corrigindo isso agora.

— Bom, já que se conheceram, talvez a gente possa conversar sobre negócios. Ouvi dizer que a Moretti Shipping está expandindo as rotas do Atlântico.

— Estou aqui pela gala, Conrad. Não pelos seus negócios.

O tom foi tão direto, tão desprovido de qualquer educação diplomática, que várias cabeças próximas se viraram discretamente.

Conrad riu, um som forçado que não escondia o desconforto por baixo.

— Sempre gostei do seu senso de humor.

— Não estava brincando.

O silêncio que se seguiu foi cortante o suficiente para que até a orquestra, tocando ao fundo, parecesse mais baixa do que realmente estava.

Finalmente, Luca soltou minha mão, mas não se afastou.

— Winnie, você parece pálida. Vamos até a varanda? O ar aqui dentro está pesado.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele já tinha oferecido o braço, e a escolha entre segui-lo ou ficar presa numa conversa tensa entre meu marido e um dos homens mais perigosos de Nova York pareceu, de repente, óbvia demais para hesitar.

— Com licença — falei, para Conrad, e me afastei antes que ele pudesse protestar na frente de tanta gente.

A varanda estava fria, o vento de outubro cortando através do vestido rosa fino que eu tinha escolhido.

— Você não parece com frio — Luca observou, tirando o próprio paletó e colocando sobre meus ombros sem perguntar.

— Estou bem.

— Não parecia bem lá dentro, quando ele te tratou como propriedade na frente de todo mundo.

Aquilo me pegou de surpresa, a precisão com que ele tinha lido a situação em segundos.

— Você não sabe nada sobre meu casamento, Sr. Moretti.

— Luca. E sei mais do que você imagina.

— Como assim?

Ele hesitou, olhando para o horizonte de Manhattan brilhando abaixo de nós, calculando quanto revelar.

— Eu tenho observado Conrad King há alguns meses. Por motivos que não têm nada a ver com você, inicialmente.

— Motivos de negócios?

— Motivos que envolvem descobrir de onde vem o dinheiro que ele usa para financiar aquela fundação toda respeitável.

Senti um arrepio que não tinha nada a ver com o vento frio.

— Do que você está falando?

— Ainda não tenho provas suficientes para dizer com certeza. Mas o suficiente para saber que seu marido não é o homem generoso que todo mundo naquele salão acredita que ele é.

Fiquei em silêncio, absorvendo aquilo, sentindo uma mistura estranha de medo e algo parecido com validação, como se finalmente alguém enxergasse o que eu vinha sentindo havia anos sem conseguir provar.

— Por que você está me contando isso?

— Porque, quando te vi parada perto daquelas janelas, segurando uma taça que você claramente não queria beber, reconheci alguma coisa. O jeito como você se encolhe quando ele fala. O jeito como você escolheu aquele vestido, sabendo que ia pagar caro por isso depois.

— Você está me analisando como se fosse um dos seus negócios.

— Estou te vendo como uma mulher que merece muito mais do que está recebendo.

As palavras dele pousaram em algum lugar que eu tinha fechado havia tanto tempo que quase esqueci que ainda existia.

— Eu preciso voltar lá para dentro antes que ele desconfie de alguma coisa.

— Winnie.

Parei, a mão já na porta de vidro.

— Se algum dia você precisar de ajuda, de qualquer tipo, meu número está guardado no seu celular agora.

— Como você…

— Meu segurança é bom no que faz. Considere isso um seguro, não uma invasão.

Voltei para dentro do salão antes que Conrad pudesse notar minha ausência prolongada, o coração batendo de um jeito que eu não sentia havia anos — não de medo, mas de alguma coisa perigosamente parecida com esperança.

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