A chuva batia nas janelas do restaurante com tanta força que parecia que a cidade inteira estava sendo sacudida.

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Chapter 1

A chuva batia nas janelas do restaurante com tanta força que parecia que a cidade inteira estava sendo sacudida.

Eu estava sentada atrás do balcão, terminando minha lição de casa entre um cliente e outro, quando o sininho da porta tocou de repente.

Levantei os olhos.

Um menininho estava parado ali, sozinho.

Não devia ter mais que oito anos.

O casaco caro dele estava completamente encharcado, os sapatos deixavam poças no chão, e as mãozinhas seguravam com força um saco de papel rasgado.

Ele parecia apavorado.

Não daquele jeito que as crianças ficam quando perdem os pais de vista por um minuto.

Era o tipo de medo que faz uma criança sentir que não tem mais para onde ir.

Eu tinha só doze anos, e ajudava minha avó a tocar nosso pequeno restaurante em Chicago depois da escola.

O movimento estava fraco fazia semanas.

A tempestade tinha deixado quase todo mundo em casa.

Mas quando vi aquele menino ali, tremendo e segurando o choro, não pensei em dinheiro.

Pensei no meu irmãozinho.

Peguei uma toalha atrás do balcão e fui até ele.

— Oi, você está bem?

O menino me olhou com cuidado antes de balançar a cabeça.

— Qual é o seu nome?

— Misha — ele sussurrou.

A voz dele mal se ouvia por cima da chuva lá fora.

— Você comeu alguma coisa hoje?

Ele não respondeu.

Mas a barriga dele respondeu por ele.

O barulho foi impossível de ignorar.

Sorri, gentil.

— Vem, senta aqui.

Levei ele até a mesa mais quentinha do restaurante, enrolei a toalha nos ombros dele e fui para a cozinha.

Poucos minutos depois, voltei com tudo o que consegui preparar.

Panquecas.

Ovos.

Torradas.

Sopa.

E o último pedaço de torta de maçã que sobrava na geladeira.

Misha olhou para a mesa.

— Eu não tenho dinheiro — disse baixinho.

— Você não precisa de dinheiro.

Ele me olhou como se não entendesse.

— Sério?

— Sério. Só come.

Por um instante, ele não se mexeu.

Depois pegou o garfo.

E comeu.

Não rápido por ganância.

Rápido porque estava com muita fome.

Da cozinha, minha avó observava em silêncio.

— Você sabe que não podemos ficar dando comida de graça — ela disse baixinho.

Olhei para Misha.

— Ele precisava mais do que a gente.

Ela suspirou, mas sorriu.

Depois de um tempo, Misha foi ficando mais calmo.

As mãos dele pararam de tremer, mas os olhos ainda pareciam preocupados.

— O que aconteceu? — perguntei.

Ele baixou o olhar.

— Eu estava do lado de fora do shopping. Vi um gatinho e fui atrás dele.

Ele engoliu em seco.

— Quando voltei, minha babá tinha sumido.

Me inclinei para mais perto.

— Você sabe o nome do seu pai?

O menino congelou.

— Mikhail Volkov.

O nome não significava nada pra mim.

Eu só via uma criança assustada.

Mas o jeito que ele disse aquilo me fez perceber que tinha algo diferente na família dele.

— Você consegue ligar pra ele?

Misha balançou a cabeça devagar.

— Mas o papai vai ficar bravo.

— Com você?

Ele fez que não.

— Com todo mundo, menos comigo.

Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com isso, faróis apareceram de repente do lado de fora.

Três SUVs pretos pararam na frente do restaurante.

A porta se abriu.

Homens de terno escuro entraram, atravessando a chuva.

O restaurante inteiro ficou em silêncio.

Então um homem alto, de sobretudo preto, entrou.

Misha se levantou na hora.

— Papai!

A expressão fria do homem mudou por um segundo.

Depois ele olhou para os pratos vazios na mesa.

Por fim, os olhos dele se voltaram para mim.

O homem mais temido da cidade encarava a menina de doze anos que tinha alimentado o filho dele.

Então ele disse seis palavras que eu nunca vou esquecer.

Mas o que ele disse mudou tudo o que eu pensava saber sobre aquela noite… e sobre mim mesma.

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