A chuva batia nas janelas do restaurante com tanta força que parecia que a cidade inteira estava sendo sacudida.

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Chapter 2

O homem ficou parado no meio do restaurante por um instante que pareceu durar uma eternidade.

A chuva batia na porta atrás dele, mas ninguém se atrevia a falar.

Os homens de terno preto ficaram na entrada, olhando para todos os lados, como se procurassem perigo em cada canto.

Misha correu até o pai e se agarrou à perna dele.

— Papai, eu me perdi. Mas ela me ajudou.

O homem colocou a mão na cabeça do filho, sem tirar os olhos de mim.

— Como você se chama? — ele perguntou, com uma voz grave e calma, mas que carregava um peso estranho.

— Sofia — respondi, tentando não deixar minha voz tremer.

Ele olhou para os pratos vazios na mesa.

Depois olhou para a toalha ainda enrolada nos ombros de Misha.

Minha avó saiu da cozinha, secando as mãos no avental, e se colocou ao meu lado.

— Ele estava com fome e com frio — ela disse. — Fizemos o que qualquer pessoa decente faria.

O homem balançou a cabeça devagar, como se estivesse processando aquilo.

Então ele deu um passo à frente.

Os homens atrás dele se moveram junto, mas ele ergueu a mão, e todos pararam.

— Meu nome é Mikhail Volkov — ele disse. — E eu preciso saber uma coisa.

Engoli em seco.

— O que o senhor quer saber?

Ele olhou bem nos meus olhos, como se estivesse decidindo se podia confiar em mim.

— Por que você o ajudou, sem saber quem ele era?

A pergunta me pegou de surpresa.

— Porque ele estava sozinho — respondi. — E com medo. Isso é motivo suficiente.

Por um segundo, algo mudou no rosto dele.

Não era mais frieza.

Era outra coisa. Talvez surpresa. Talvez alívio.

Ele se aproximou da mesa e colocou a mão no ombro do filho.

— Eu procurei por ele nas últimas duas horas como um louco — disse, quase sem fôlego. — A cidade inteira, debaixo dessa chuva.

Minha avó franziu a testa.

— A babá dele não avisou ninguém?

O rosto de Mikhail escureceu.

— A babá não está mais na empresa.

Ele disse aquilo de um jeito que não deixava dúvida: não tinha sido uma demissão comum.

Um silêncio pesado tomou conta do restaurante.

Misha se apertou ainda mais contra o pai, como se sentisse o peso daquelas palavras sem entender exatamente o que significavam.

Mikhail respirou fundo, se recompôs, e voltou a olhar para mim.

— Você tem doze anos, Sofia. E teve coragem onde adultos treinados falharam essa noite.

Não soube o que responder.

Ele tirou o casaco molhado e colocou sobre os ombros do filho, por cima da toalha.

— Eu vou pagar por tudo que vocês deram a ele — disse, tirando a carteira do bolso.

Minha avó ergueu a mão na hora.

— Não precisa. Não fizemos isso por dinheiro.

Mikhail parou, carteira ainda na mão, olhando para ela como se ninguém tivesse recusado seu dinheiro havia muito tempo.

— A senhora sabe quem eu sou? — perguntou, quase curioso.

— Não, e não me importa — ela respondeu, sem hesitar. — Aqui dentro, você é só um pai que encontrou o filho. Isso me basta.

Um dos homens atrás de Mikhail trocou um olhar rápido com outro, como se aquilo fosse algo raro de se ver.

Mikhail guardou a carteira lentamente.

Ele olhou para mim de novo, e dessa vez havia algo diferente em seus olhos. Uma decisão sendo tomada.

— Sofia — disse ele, baixando um pouco a voz. — Eu quero te fazer uma pergunta, e quero que você responda com sinceridade.

Meu coração acelerou.

— Se alguém tentasse te machucar por ter ajudado meu filho hoje… você teria feito diferente?

A pergunta me assustou, mas também me deixou confusa.

— Por que alguém ia querer me machucar?

Ele não respondeu de imediato.

Em vez disso, olhou para a porta, para a chuva lá fora, como se estivesse enxergando algo que nós não conseguíamos ver.

Então ele se aproximou mais um passo, abaixou-se até ficar na minha altura, e disse as seis palavras que eu jamais esqueceria.

— Você nunca mais vai passar fome.

Não era uma promessa de gratidão qualquer.

Era um juramento.

E, pela forma como os homens atrás dele se entreolharam, percebi que aquelas palavras significavam muito mais do que eu podia imaginar naquele momento.

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