A chuva batia nas janelas do restaurante com tanta força que parecia que a cidade inteira estava sendo sacudida.

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Chapter 4

Diomedes.

Eu não sabia o significado daquele nome até a noite em que tudo quase desmoronou.

Era uma sexta-feira chuvosa, quase idêntica àquela em que tudo começou.

O restaurante estava quase vazio quando a porta se abriu com força.

Não era Mikhail.

Era um homem que eu nunca tinha visto, com um sorriso que não alcançava os olhos.

— Vocês são as pessoas que ajudaram o menino Volkov — ele disse, mais como afirmação do que pergunta.

Minha avó se colocou imediatamente na minha frente.

— O que você quer?

O homem deu alguns passos para dentro, olhando ao redor com desprezo, como se avaliasse quanto valia tudo aquilo.

— Só uma conversa. Sabe, o Mikhail tem sido… difícil de alcançar ultimamente. Protege demais o que é dele.

Senti o coração disparar.

— Nós não temos nada a ver com os negócios dele — falei, tentando manter a voz firme.

— Ah, mas têm — ele respondeu, se aproximando do balcão. — Vocês são exatamente o tipo de coisa que ele protegeria com a própria vida. E isso as torna… úteis.

Minha avó pegou o telefone atrás do balcão, mas o homem estalou os dedos, e um segundo homem que eu nem tinha percebido lá fora bloqueou a porta.

— Não seria sensato fazer essa ligação agora — ele disse, ainda sorrindo.

Meu irmão mais novo, que estava fazendo dever de casa numa mesa dos fundos, ficou paralisado, olhando para mim em busca de alguma resposta que eu não tinha.

— O que você quer que a gente faça? — perguntei, tentando ganhar tempo.

— Quero que digam ao Mikhail que Diomedes manda lembranças. E que, da próxima vez, pode não ser só uma conversa.

Ele pegou a última fatia de torta que estava no balcão, deu uma mordida, e a jogou no chão como quem descarta lixo.

— Isso é pelo carinho que ele tem por essa lojinha — completou, com desdém.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, faróis iluminaram a rua lá fora.

O segundo homem, o que bloqueava a porta, olhou para trás, tenso.

— É ele — sussurrou.

O homem chamado Diomedes… ou melhor, o mensageiro de Diomedes, praguejou baixinho e recuou em direção à porta dos fundos.

A porta da frente se abriu com violência, e Mikhail entrou, seguido por três homens armados.

O que restava do mensageiro tentou fugir pelos fundos, mas foi cercado antes de sair.

Mikhail nem olhou para ele.

Seus olhos foram direto para mim, para minha avó, para meu irmão encolhido na mesa.

— Vocês estão bem? — perguntou, e havia um desespero genuíno na voz dele, algo que eu nunca tinha ouvido antes.

— Estamos — respondi, ainda tremendo. — Mas ele disse um nome. Diomedes.

O rosto de Mikhail se fechou como uma porta de aço.

Ele se virou para o homem capturado, e a temperatura do ambiente pareceu cair vários graus.

— Você veio à casa errada — disse Mikhail, com uma calma que era mais assustadora que qualquer grito.

O homem tentou argumentar, mas um dos seguranças o levou para fora antes que conseguisse terminar a frase.

Mikhail se ajoelhou na minha frente, olhando nos meus olhos.

— Eu prometi que vocês nunca mais passariam fome. Eu falhei em prometer que estariam seguras. Isso muda agora.

— O que vai acontecer com ele? — perguntei, olhando para a porta por onde o homem tinha sido levado.

— Isso não é problema de vocês — ele respondeu, com firmeza, mas sem crueldade.

Minha avó, ainda pálida, segurou minha mão com força.

— Nós não pedimos por essa vida, Sr. Volkov.

— Eu sei — ele disse novamente, como já tinha dito antes. — E depois de hoje, prometo que essa vida nunca mais vai bater à porta de vocês sem que eu esteja aqui primeiro.

Ele ficou até tarde, conversando em voz baixa com seus homens, organizando algo que eu não entendia e não queria entender.

Antes de ir embora, parou na porta e olhou para trás.

— Diomedes vai receber uma resposta. E depois disso, ele nunca mais vai olhar para essa direção.

Naquela noite, pela primeira vez desde que tudo começou, minha avó trancou a porta e disse, num sussurro que parecia mais para si mesma do que para mim:

— Acho que, quando aquele menino entrou aqui, alguma coisa maior que nós entrou junto.

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