Chapter 3
Depois daquela noite, tudo mudou, mas não do jeito que eu esperava.
Nos dias seguintes, uma caminhonete começou a passar devagar pela nossa rua, sempre no mesmo horário.
Minha avó fingia não notar, mas eu via a forma como ela travava a porta duas vezes antes de dormir.
Uma semana depois, um carro preto parou em frente ao restaurante.
Dessa vez não eram os homens de terno.
Era só Mikhail, sozinho, sem o filho.
Ele entrou e sentou no mesmo banco onde Misha tinha comido.
— Eu vim pagar uma dívida — disse, sem rodeios.
Minha avó cruzou os braços.
— Já disse que não precisa.
— Não é sobre dinheiro — ele respondeu. — É sobre proteção.
Aquela palavra pairou no ar como um aviso.
— Proteção do quê? — perguntei, sem conseguir me conter.
Ele hesitou antes de responder, como se estivesse escolhendo com cuidado o que revelar.
— A babá do Misha não sumiu por acaso. Ela foi paga para deixá-lo sozinho naquela noite.
Senti um arrepio subir pela espinha.
— Alguém tentou levar o meu filho, Sofia. E quase deu certo.
Minha avó ficou pálida.
— E por que você está nos contando isso?
— Porque, se descobrirem que meu filho passou horas com vocês, sem vigilância, podem pensar que vocês sabem de algo. Ou pior, podem tentar usar vocês para chegar até mim.
O restaurante, que antes parecia o lugar mais seguro do mundo, de repente parecia pequeno demais para nos proteger de qualquer coisa.
— Então o que você quer que a gente faça? — perguntei, tentando parecer corajosa.
— Por enquanto, nada. Só fiquem atentas. E, se virem algo estranho, me liguem direto.
Ele colocou um cartão simples sobre o balcão, sem nome, só um número.
Minha avó olhou para o cartão como se fosse uma cobra prestes a atacar.
— Nós não pedimos para entrar nesse mundo, Sr. Volkov.
— Eu sei — ele respondeu, com um cansaço que não combinava com a fama que ele carregava. — E sinto muito por isso.
Ele se levantou para ir embora, mas parou na porta.
— Misha não para de falar de você, Sofia. Ele disse que você foi a primeira pessoa em muito tempo que não olhou para ele com medo ou com interesse.
Aquilo me pegou de um jeito que não soube explicar.
— Ele é só uma criança — falei baixinho.
— Nesse mundo, isso não é garantia de nada — ele respondeu, e saiu para a chuva fina que ainda caía.
Nas semanas seguintes, a caminhonete suspeita não voltou a aparecer.
Mas outra coisa começou a acontecer: pequenas entregas discretas, roupas de inverno, uma caixa de remédios quando meu irmão ficou doente, um conserto silencioso no telhado do restaurante que vazava havia meses.
Nunca havia um cartão, nunca uma explicação.
Minha avó fingia não entender de onde vinham, mas eu sabia.
Um sábado à tarde, Misha apareceu na porta do restaurante, dessa vez acompanhado por um segurança que ficou esperando do lado de fora.
— Posso comer panquecas de novo? — ele perguntou, sorrindo pela primeira vez desde que eu o conhecia sorrindo de verdade.
Eu ri e o deixei entrar.
Enquanto ele comia, me contou, baixinho, que seu pai andava mais tenso que o normal, trancado em reuniões que duravam a noite toda.
— Ele acha que eu não escuto — Misha disse — mas eu escuto tudo.
— O que você escutou?
Ele olhou para os lados antes de responder, como se tivesse aprendido cedo demais a ter cuidado com as palavras.
— Escutei o nome de um homem. Diomedes. Meu pai fica bravo toda vez que alguém fala esse nome perto dele.
Não dei importância na hora.
Mas essa palavra, esse nome, voltaria para assombrar todos nós antes que a história terminasse.
