Tudo mudou no instante em que minha filha soltou a minha mão no Lincoln Park e saiu correndo em direção a uma menininha sentada sozinha debaixo de um carvalho.

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Chapter 1

Tudo mudou no instante em que minha filha soltou a minha mão no Lincoln Park e saiu correndo em direção a uma menininha sentada sozinha debaixo de um carvalho. Quando Lily se virou e gritou “Pai, ela é igualzinha a mim”, eu vi o rosto da irmã gêmea que eu nunca soube que estava viva.

Um segundo antes, Lily estava pulando ao meu lado, falando sobre sorvete de caramelo e um cachorro vira-lata que queria esconder e levar para casa escondido.

No segundo seguinte, ela atravessou a grama molhada correndo em direção a um banco desgastado.

— Lily — chamei, sério. — Volta aqui. Agora.

Ela não me ouviu.

Meus seguranças se mexeram atrás de mim, mas ergui a mão e fui atrás dela eu mesmo. Domingo à tarde era o dia da Lily, e por algumas horas preciosas, eu não era Marcus Blackwell, o temido chefe da família criminosa mais poderosa de Chicago.

Eu era só o pai dela.

Então cheguei perto do banco e parei de respirar.

Uma menininha estava sentada ali, agarrada a um urso de pelúcia surrado contra o peito. Parecia ter uns sete anos, com o rosto magro demais, um casaco fino demais para o vento de outubro, e sapatos remendados com fita adesiva cinza.

Mas o rosto dela me congelou.

— Papai — Lily disse, sem fôlego. — Olha ela. É minha irmã.

A criança levantou a cabeça.

O mesmo rosto em formato de coração. O mesmo nariz. O mesmo queixo teimoso. Até o jeito que o cabelo caía na testa era idêntico ao de Lily, de um jeito que parecia impossível.

Então eu vi os olhos dela.

Verdes brilhantes.

Os olhos da Grace.

Os olhos da mulher que eu tinha enterrado sete anos antes.

A garotinha se encolheu quando me aproximei, mas Lily se sentou no banco ao lado dela como se já se conhecessem havia uma vida inteira.

— Não fica com medo — Lily disse. — Meu pai parece assustador, mas ele é bonzinho com quem é pequeno.

Um dos meus seguranças fez um som estrangulado atrás de mim. Ignorei e me agachei para não parecer tão alto na frente da criança.

De perto, os sinais eram ainda piores. Os lábios rachados, olheiras escuras sob os olhos, e os dedos tremendo — de frio, de medo, ou das duas coisas.

— Qual é o seu nome? — perguntei.

— Emma — ela sussurrou.

Lily sorriu como se aquela resposta já provasse tudo.

— Viu? Eu sabia. Você é minha irmã.

Emma olhou entre nós dois, e algo mudou na expressão dela. Por baixo do medo havia um reconhecimento, quase um alívio, como se ela tivesse finalmente encontrado o lugar que procurava sem saber o nome dele.

Eu deveria ter chamado o serviço social e tratado aquela semelhança como coincidência.

Em vez disso, perguntei:

— Onde estão seus pais?

A boca dela tremeu.

— Minha mamãe morreu há três meses.

Aquelas palavras me atingiram com força suficiente para esvaziar meu peito.

— E seu pai?

Ela balançou a cabeça, negando.

Lily franziu a testa para mim.

— Talvez ele também esteja perdido.

Forcei minha voz a ficar calma.

— Com quem você está morando agora?

— Com a tia Karen.

— Onde ela está?

Emma olhou para a ponta dos sapatos remendados.

— Ela disse pra eu esperar aqui.

Uma fúria fria percorreu meu corpo.

— Quando ela foi embora?

— Antes do sol nascer.

Olhei o relógio.

Já eram quase cinco da tarde.

Lily puxou minha manga.

— Papai, ela está com fome.

Como se as palavras dessem permissão, a barriga de Emma roncou alto. O rosto dela queimou de vergonha, e ela tentou se esconder atrás do ursinho de pelúcia.

Alguma coisa dentro de mim se partiu.

Eu tinha passado anos transformando cada parte sensível de mim em armadura, porque piedade podia ser explorada e amor podia virar arma contra mim. Mas olhando para aquela criança — o rosto da minha filha, os olhos da Grace, e um medo grande demais para um corpo tão pequeno carregar — senti raiva, luto e ternura colidindo ao mesmo tempo.

— Emma — falei, com cuidado. — Qual era o nome da sua mãe?

E a resposta que veio a seguir mudaria para sempre o destino das duas meninas… e o meu também.

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