Chapter 3
Não dormi aquela noite.
Fiquei sentado no escritório, cercado de documentos antigos, tentando reconstruir uma verdade que eu pensava já conhecer havia sete anos.
De manhã, um dos meus homens, Victor, bateu na porta com um envelope na mão.
— Encontramos a tia. Karen Whitfield. Mas, senhor… tem coisa estranha nisso.
— Fala.
— Ela não é parente de sangue da Grace. É prima de segundo grau de um homem chamado Dominic Reyes.
O nome me atingiu como um tiro.
Dominic Reyes tinha sido meu rival havia anos — um homem que eu acreditava ter neutralizado definitivamente pouco antes da suposta morte de Grace.
— Continua — falei, sentindo o sangue gelar.
— Parece que a Karen recebia pagamentos mensais de uma conta ligada a ele. Pagamentos que pararam há três meses. Bem na época em que a “mãe” da menina teria morrido.
As peças começaram a se encaixar de um jeito que eu não queria aceitar.
— Você está me dizendo que Reyes escondeu a Grace e a Emma esse tempo todo?
— É possível, senhor. E, se isso é verdade, ele sabia que a menina existia. E deixou ela largada num parque, sozinha, bem na sua área.
Aquilo não era coincidência.
Era uma isca.
Levantei-me tão rápido que a cadeira caiu para trás.
— Ele queria que eu a encontrasse.
Victor assentiu, sério.
— Ou queria testar se o senhor ainda tinha algum ponto fraco que pudesse ser usado.
Fui até o quarto onde Emma dormia, e a observei por um instante através da porta entreaberta. Ela dormia agarrada ao ursinho, com Lily do lado, que tinha insistido em passar a noite ali “para ela não ficar com medo sozinha”.
Duas crianças, inocentes, no meio de um jogo que nenhuma delas tinha escolhido jogar.
Fechei a porta com cuidado e voltei para o escritório, onde Victor esperava com mais informações.
— Tem mais uma coisa — ele disse, hesitante. — Encontramos um bilhete escondido dentro do ursinho de pelúcia da menina. Estava costurado por dentro.
Ele me entregou um pedaço de papel amassado, com uma caligrafia que reconheci imediatamente.
Era a letra da Grace.
As mãos me tremeram enquanto lia.
“Marcus, se você está lendo isso, significa que Emma finalmente te encontrou. Eu não morri naquele dia — fui obrigada a desaparecer para proteger nossa filha de Dominic. Ele descobriu que eu tinha engravidado de novo e ameaçou usar a criança contra você. Fingir minha morte foi a única forma de mantê-la em segurança. Mas ele nunca parou de me vigiar. Se algo acontecer comigo, por favor, cuide dela. Ela é parte de você tanto quanto a Lily. Perdoe-me pelo silêncio. Eu te amei até o fim. — Grace.”
Larguei o papel sobre a mesa, sentindo o peito apertar de um jeito que não sentia desde o dia do falso funeral.
— Ela estava viva esse tempo todo — sussurrei. — Escondida, com medo, sozinha.
— E agora está morta de verdade — Victor completou, baixinho. — O que significa que Reyes provavelmente teve alguma participação nisso também.
A raiva que eu tinha guardado por sete anos, achando que enterraria junto com Grace, voltou com uma força que quase me deixou sem ar.
— Encontrem tudo sobre Reyes. Onde ele está, com quem ele anda, o que ele está planejando. Eu quero saber cada movimento dele antes do anoitecer.
Victor assentiu e saiu depressa.
Fiquei sozinho, olhando para o bilhete, para a letra da mulher que eu tinha amado e perdido duas vezes — uma quando pensei que ela tinha morrido, e outra agora, sabendo que ela realmente tinha partido, mas depois de anos escondida, com medo, tentando proteger uma filha que eu nunca soube que existia.
No corredor, ouvi passinhos pequenos se aproximando.
Emma estava parada na porta do escritório, ainda de pijama, olhando para mim com aqueles olhos verdes que agora carregavam um peso que nenhuma criança deveria carregar.
— Você está triste por causa da minha mãe? — ela perguntou, baixinho.
Guardei o bilhete rapidamente, tentando não deixar que ela visse.
— Estou triste porque ela teve que ficar longe de nós por muito tempo — respondi, com a voz embargada.
Emma se aproximou e, sem dizer nada, subiu no meu colo, do jeito que uma criança faz quando busca conforto instintivamente, mesmo mal me conhecendo.
— Ela dizia que, se algum dia eu ficasse sozinha, tinha um homem bom que ia cuidar de mim. Ela dizia que ele tinha um coração maior do que ele mesmo sabia.
Abracei aquela menina como se pudesse, de alguma forma, compensar todos os anos que ela tinha vivido com medo.
E, enquanto a segurava, prometi a mim mesmo que Dominic Reyes pagaria por cada dia que Grace e Emma tiveram que viver escondidas.
