Tudo mudou no instante em que minha filha soltou a minha mão no Lincoln Park e saiu correndo em direção a uma menininha sentada sozinha debaixo de um carvalho.

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Chapter 2

O silêncio que se seguiu à minha pergunta pareceu durar uma eternidade.

Emma apertou o ursinho de pelúcia contra o peito, como se aquilo pudesse protegê-la da própria resposta.

— Grace — ela disse, finalmente. — Minha mãe se chamava Grace.

O nome caiu sobre mim como um soco.

Lily, sem entender o peso daquelas palavras, só sorriu.

— Que nome bonito.

Fiz um esforço enorme para manter a voz firme.

— Grace o quê? Você sabe o sobrenome dela?

Emma balançou a cabeça, hesitante.

— Ela disse que a gente não podia usar o sobrenome verdadeiro. Ela dizia que era perigoso.

Senti o chão se mover sob meus pés, mesmo estando ajoelhado na grama.

Grace tinha morrido sete anos atrás. Eu tinha visto o caixão. Eu tinha carregado o caixão.

Mas ali, na minha frente, estava uma menina com os olhos dela, contando uma história que não fazia sentido algum — a menos que nada do que eu soubesse sobre a morte de Grace fosse verdade.

— Emma — falei, tentando manter a calma. — Quantos anos você tem?

— Sete.

Fiz as contas na cabeça, rapidamente, com o coração disparado.

Sete anos. O mesmo tempo desde que Grace tinha “morrido”.

Meus seguranças trocaram olhares atrás de mim, sentindo que algo muito maior do que uma criança perdida estava se desenrolando ali.

— Senhor Blackwell — um deles se aproximou, com cautela. — Talvez seja melhor chamarmos alguém. Serviço social, ou…

— Não — cortei, sem nem olhar para ele. — Ninguém vai tocar nessa menina até eu entender o que está acontecendo.

Lily segurou a mão de Emma.

— Ela pode vir para casa com a gente, né, papai? Ela é minha irmã. Não dá pra deixar ela aqui sozinha.

Olhei para as duas meninas, lado a lado, e a semelhança era assustadora demais para ser ignorada.

— Emma — falei, mais suave dessa vez. — Você quer vir comigo e com a Lily? Só até a gente descobrir onde está sua tia.

Ela olhou para mim com desconfiança, do jeito que só uma criança que já foi abandonada consegue olhar.

— Você não vai machucar ela? — perguntou, apontando para Lily.

A pergunta me cortou fundo.

— Nunca — respondi. — Eu prometo.

Alguma coisa na minha voz pareceu convencê-la, porque ela finalmente assentiu, devagar.

Levantei-a no colo, sentindo como ela era leve demais para os sete anos que dizia ter, e fiz um sinal para meus homens.

— Encontrem essa tia Karen. Descubram tudo sobre ela. E não quero barulho.

Um deles assentiu e se afastou, já com o telefone na mão.

No carro, Emma ficou grudada na porta, longe de mim, olhando pela janela como se esperasse que tudo aquilo desaparecesse a qualquer momento.

Lily, do outro lado, não parava de falar, contando sobre seus brinquedos, seu quarto, o cachorro que queria ter.

Pela primeira vez em muito tempo, notei um pequeno sorriso no rosto de Emma — hesitante, mas real.

Quando chegamos em casa, minha governanta, Rosa, quase deixou cair a bandeja que carregava.

— Senhor Marcus, quem é…

— Depois eu explico — falei, passando por ela com Emma ainda no colo. — Por agora, ela precisa de um banho quente, roupas limpas e uma refeição de verdade.

Rosa, que trabalhava comigo desde antes de Grace morrer, olhou para o rosto de Emma e levou a mão à boca.

— Meu Deus — sussurrou. — Ela é…

— Eu sei — cortei, antes que ela dissesse o nome de Grace na frente da menina.

Enquanto Rosa cuidava de Emma, fui até meu escritório e tirei do cofre uma pasta que eu não abria havia anos: o laudo médico, o atestado de óbito, as fotos do funeral.

Sentei-me à mesa e passei os documentos, um por um, procurando algo — qualquer coisa — que explicasse como uma menina com os olhos de Grace, nascida na mesma época em que Grace teria engravidado pela segunda vez sem que eu soubesse, estava agora dormindo sob meu teto.

Foi então que notei uma data no atestado de óbito.

A data da morte não batia com a data que eu tinha guardado na memória durante sete anos.

Alguém tinha alterado aquele documento.

E, se aquilo era verdade, então talvez Grace não tivesse morrido daquele jeito.

Talvez ela tivesse fugido.

E talvez tivesse levado consigo um segredo grande demais para qualquer um de nós imaginar.

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