Chapter 1
“Eu me recuso a dividir uma casa com uma ex-presidiária.”
Essas foram as primeiras palavras que ouvi da minha cunhada, Sheila, vindas de trás da porta da casa que eu havia sonhado em voltar a ver por dois anos intermináveis.
Fiquei parada na calçada, sem me mexer, uma mão apoiada na mala enquanto meu coração disparava tão forte que parecia que ia sair pelo peito.
Lá dentro, minha mãe, Abigail, respondeu em voz baixa, mas não baixa o suficiente para que eu não ouvisse cada palavra.
“É o melhor para todo mundo. Se a Summer voltar, ela vai querer a parte dela na casa. Com antecedente criminal, ninguém vai empregar ela, ninguém vai querer casar com ela, e no fim ela só vai virar um peso pra essa família.”
Sheila soltou uma risadinha seca.
“Então que ela alugue um quarto em outro lugar. Eu tô esperando um bebê. Preciso de sossego, não de uma criminosa andando pela minha sala.”
Foi como se algo dentro de mim tivesse se despedaçado.
A casa em Columbus nunca foi grande coisa, mas eu tinha pagado boa parte dela depois de anos trabalhando numa loja de tecidos no Centro Histórico. Antes de eu ser mandada embora, meu pai sempre me chamava de “a filha que segura essa família”. Todo domingo minha mãe fazia aquele café tradicional e me chamava com orgulho de “minha menina forte”. Meu irmão Austin chorou nos meus braços na noite em que me implorou pra assumir a culpa por algo que ele tinha feito.
Agora, atrás daquela porta tão familiar, falavam de mim como se eu fosse uma estranha.
Respirei fundo antes de tocar a campainha.
Minha mãe abriu a porta. No instante em que me reconheceu, seus olhos se arregalaram como se tivesse visto um fantasma.
“Summer! Filha… você voltou.”
Ela me abraçou sem jeito, mal encostando os braços em mim. Depois seus olhos percorreram devagar minha aparência.
“Você emagreceu tanto. Coitada. Deve ter passado por tanta coisa lá dentro.”
Se eu não tivesse ouvido o que ela dissera minutos antes, provavelmente teria acreditado em cada palavra.
“Eu tô bem, mãe,” respondi, engolindo o nó na garganta. “Vim direto do presídio estadual.”
Assim que atravessei a soleira da porta, Sheila apareceu carregando um frasco de álcool. Sem sequer um cumprimento, ela me borrifou dos ombros até os sapatos.
“Não leva a mal,” disse ela, quase esvaziando o frasco. “É só pra tirar a energia ruim. Você sabe… de onde você veio.”
O cheiro forte queimou meu nariz.
Austin ficou parado no corredor, calado, sem dizer nada.
Meu pai, Lawrence, nem se deu ao trabalho de levantar do sofá. Continuou vendo televisão como se meu retorno fosse apenas um incômodo.
“Vou levar minhas coisas pro meu quarto,” eu disse.
Segui até o quarto onde eu tinha dormido desde criança.
No instante em que abri a porta, meu sangue gelou.
Minha cama tinha sumido.
Meus livros, minhas fotos, as caixas cheias de lembranças de infância, a máquina de costura que eu tinha comprado com meu primeiro salário… tudo, absolutamente tudo, tinha desaparecido.
No lugar, o quarto estava cheio de sacolas de roupa velha, caixas de fraldas, um carrinho de bebê novinho e móveis estragados.
“O que aconteceu com esse quarto?” perguntei, olhando direto pra minha mãe.
Abigail baixou o olhar.
“Filha, já faz dois anos. A casa não é tão grande. A Sheila precisa de espaço pras coisas do bebê.”
“E o que aconteceu com as minhas coisas?”
Meu pai apagou o cigarro num prato.
“Você não ia mais usar aquilo. A gente não ia deixar tudo do jeitinho que estava pra sempre.”
Aquelas palavras me machucaram mais do que qualquer noite que sobrevivi lá dentro.
“Então onde exatamente eu devo dormir?”
Minha mãe pegou na bolsa duas notas de cem dólares e colocou em cima da mesa.
“Vai procurar um hotel baratinho por uns dias. Você já é uma mulher adulta, Summer.”
Olhei pro Austin. Ele evitou meus olhos.
“Você também acha isso?”
Por um instante, ele pareceu genuinamente incomodado.
“Você é minha irmã,” ele murmurou. “Claro que eu quero te ajudar.”
Pela primeira vez desde que cheguei, senti uma pontinha de esperança.
Foi quando Sheila cruzou os braços e lançou um olhar gelado pra ele.
“Austin, nem começa. Essa casa já é sua agora. Sua irmã tem trinta anos. Ela não pode simplesmente voltar aqui como se nada tivesse acontecido.”
Foi nesse momento que tudo ficou claro. Eles não queriam só me tirar de casa. Já tinham colocado o imóvel no nome do Austin antes mesmo de eu voltar, na esperança de me apagar da vida deles de vez.
Enquanto todos ficavam ali, em silêncio, percebi que a verdadeira provação estava só começando.
Eu não fazia a menor ideia do que estava por vir…
