“Eu me recuso a dividir uma casa com uma ex-presidiária.”

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Chapter 3

Na manhã seguinte, corri até a assistência técnica mais próxima, o celular apertado contra o peito como se fosse algo precioso demais para deixar cair.

O rapaz atrás do balcão olhou pro aparelho com uma cara de dúvida.

“Modelo antigo. Vou tentar, mas não prometo nada.”

Esperei sentada num banco de plástico por quase uma hora, cada minuto parecendo uma eternidade.

Quando ele finalmente voltou com o celular ligado, a tela acendendo fraca, senti o coração disparar.

“Consegui carregar. A memória tá intacta, os arquivos de áudio ainda estão lá.”

Paguei o que ele pediu sem nem contar o dinheiro direito e saí correndo de volta pra loja do Seu Ferreira.

Tranquei a porta do quartinho, sentei na cama e, com as mãos tremendo, abri a pasta de áudios.

Lá estava. Datado de dois anos atrás. Um arquivo simples, chamado apenas “Austin”.

Apertei o play.

A voz dele saiu abafada, chorosa, exatamente como eu lembrava daquela noite.

“Eu peguei o dinheiro, Summer. Fui eu. Por favor, não conta pra ninguém, eu juro que devolvo, eu juro…”

Ouvi a gravação inteira duas vezes, sentindo o peito apertar a cada palavra.

Aquilo não era só uma prova. Era a confissão completa, com data, com nome, com detalhes que nenhum tribunal poderia ignorar.

Mas por dois anos eu escolhi não usar aquilo. Por amor ao meu irmão. Por acreditar que a família me receberia de volta com gratidão, não com desprezo.

Guardei o celular na bolsa e desci para conversar com o Seu Ferreira, que já sabia de boa parte da história pelos meus olhos inchados da noite anterior.

“Seu Ferreira, o senhor lembra quando a casa da minha família foi comprada?”

Ele pensou um pouco. “Lembro que você me contou, na época, que tinha ajudado seu pai a pagar boa parte do financiamento com o seu salário daqui.”

“Eu preciso descobrir uma coisa. Preciso saber se existe algum documento com a casa em nome do Austin, e como isso foi parar lá.”

Ele me indicou um amigo dele, advogado aposentado que ainda atendia alguns casos simples na região, o Doutor Renato.

No dia seguinte, sentei na sala pequena e bagunçada do Doutor Renato, contando a história inteira, sem esconder nada.

Ele ouviu em silêncio, anotando algumas coisas num caderno.

“Consigo puxar o histórico do imóvel no cartório. Não é rápido, mas é possível.”

Três dias depois, ele me chamou de volta com uma pasta na mão.

“Encontrei uma transferência de propriedade registrada há um ano e meio. Uma procuração assinada em seu nome, autorizando a transferência para seu irmão.”

Minhas mãos gelaram.

“Eu nunca assinei procuração nenhuma. Eu estava presa.”

O Doutor Renato me olhou sério por cima dos óculos.

“Então, Summer, isso é sério. Isso pode ser falsificação de documento. E, com a gravação que você tem, você tem muito mais do que imaginava para se defender.”

Fiquei em silêncio por um bom tempo, olhando pela janela empoeirada do escritório.

Eu não queria destruir meu irmão. Eu só queria minha vida de volta, o respeito que tinha antes de tudo isso.

Mas eles não me deram escolha.

Naquela noite, decidi. Ia voltar para aquela casa, com a gravação no celular e a cópia da procuração falsa na bolsa.

Dessa vez, eu não ia bater na porta como quem pede perdão.

Ia bater como quem exige a verdade.

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