Chapter 4
Cheguei na casa no fim da tarde de domingo, sabendo que era o único dia em que todos estariam reunidos ao mesmo tempo, como sempre foi tradição na nossa família.
Toquei a campainha e foi Austin quem abriu a porta.
Ao me ver, seu rosto mudou completamente, um misto de surpresa e desconforto.
“Summer… o que você veio fazer aqui?”
“Vim terminar uma conversa,” respondi, entrando sem esperar convite.
Na sala, minha mãe se levantou do sofá, e meu pai baixou o volume da televisão, contrariado.
Sheila apareceu da cozinha, uma mão na barriga, os olhos estreitos.
“Achei que já tinha ficado claro que você não é bem-vinda aqui.”
Coloquei minha bolsa em cima da mesa de centro, sem pressa, e tirei o celular de dentro dela.
“Antes de eu ir embora dessa vez, e definitivamente,” eu disse, olhando direto para Austin, “eu quero que todo mundo ouça uma coisa.”
Apertei o play.
A voz dele, chorosa, confessando tudo, encheu a sala.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que já senti naquela casa.
Austin ficou branco, os olhos arregalados, dando um passo para trás.
“Onde você conseguiu isso?” ele sussurrou.
“Eu gravei. Naquela noite. Nunca pensei em usar. Só guardei.”
Minha mãe levou a mão à boca, os olhos cheios de lágrimas, mas não de surpresa — de culpa.
“Vocês sabiam,” eu disse, olhando de um para o outro. “Vocês sempre souberam que fui eu quem cobriu ele.”
Meu pai desviou o olhar, sem responder.
“E o que eu não sabia,” continuei, tirando a cópia da procuração da bolsa, “é que vocês transferiram a casa para o nome do Austin usando minha assinatura falsificada enquanto eu estava presa.”
Sheila deu um passo para trás, o rosto perdendo a cor.
“Sheila,” eu disse, virando para ela. “Você sabia de tudo desde o início, não sabia? Foi você quem insistiu pra família tirar meu nome da casa antes que eu voltasse.”
Ela abriu a boca para negar, mas nada saiu.
“Eu tinha medo,” ela finalmente disse, a voz falhando. “Medo de você voltar e destruir a vida que a gente tava construindo. Medo de perder tudo por causa de um erro que nem foi meu.”
“Não foi seu,” eu respondi. “Foi dele. E vocês deixaram eu pagar por isso sozinha, por dois anos, enquanto vocês apagavam minha existência dessa casa.”
Austin caiu sentado numa cadeira, as mãos cobrindo o rosto.
“Eu sinto muito, Summer. Eu sei que não é o suficiente, mas eu sinto muito de verdade.”
“Sentir não muda o que vocês fizeram,” eu disse, a voz mais firme do que eu esperava.
Minha mãe se aproximou, tentando tocar meu braço. “Filha, a gente pode conversar, resolver isso em família…”
Eu me afastei.
“Já é tarde para isso, mãe. Amanhã eu vou com essa gravação e essa procuração falsificada até um advogado. Não pra destruir vocês. Só pra reaver o que é meu por direito.”
Meu pai finalmente se levantou do sofá, o rosto vermelho de raiva.
“Você não teria coragem de fazer isso com sua própria família.”
Olhei bem nos olhos dele, sem tremer dessa vez.
“Vocês fizeram isso com a própria família primeiro.”
Peguei minha bolsa, o celular e a pasta, e caminhei até a porta.
Antes de sair, parei e olhei para trás uma última vez, vendo aquela casa que um dia tinha sido meu lar inteiro se transformar em apenas quatro paredes cheias de mentiras.
“Vejo vocês no cartório,” eu disse, e fechei a porta atrás de mim.
