Chapter 2
Caminhei pela rua com a mala arrastando atrás de mim, as duas notas de cem dólares amassadas dentro do bolso da jaqueta.
O bairro parecia o mesmo de dois anos atrás, mas eu me sentia como uma estranha ali. As mesmas casas, as mesmas árvores, só eu tinha mudado.
Passei em frente à loja de tecidos onde trabalhei por quase dez anos. A placa ainda dizia “Tecidos Ferreira”, com as letras douradas meio desbotadas pelo sol.
Fiquei parada na calçada, olhando pra vitrine, sem coragem de entrar.
Foi quando a porta se abriu e o Seu Ferreira saiu, com o mesmo avental azul que ele sempre usava.
Ele me encarou por um segundo, como se não acreditasse no que estava vendo.
“Summer?”
Eu só consegui balançar a cabeça, sentindo os olhos arderem.
Ele largou a vassoura na porta e veio na minha direção, os braços abertos.
“Minha menina,” disse ele, me abraçando com uma força que eu não sentia há muito tempo. “Eu rezei todo santo dia por você.”
Aquele abraço me quebrou mais do que qualquer coisa que tinha acontecido na casa da minha família.
“Vim de longe, Seu Ferreira,” consegui dizer, a voz tremendo. “Não tenho pra onde ir.”
Ele me olhou dos pés à cabeça, viu a mala, viu meu rosto cansado, e não fez uma pergunta sequer.
“Você tem, sim. Lá em cima tem um quartinho vazio desde que meu filho se mudou. Não é grande coisa, mas é seco e é seu enquanto precisar.”
Eu não consegui responder. Só chorei ali, no meio da calçada, na frente da loja onde eu tinha construído a única coisa boa que restava da minha vida antes de tudo desmoronar.
Naquela noite, sentada na cama estreita do quartinho, os pensamentos voltaram para dois anos atrás, para a noite que mudou tudo.
Foi um domingo. Austin tinha chegado em casa branco como cera, as mãos tremendo, dizendo que tinha um problema sério com uns homens a quem devia dinheiro do jogo.
Ele tinha pego o dinheiro do caixa da loja, escondido, semana após semana, achando que ia repor antes que alguém notasse.
Só que o Seu Ferreira notou. E a polícia foi chamada.
Naquela noite, Austin chorou nos meus braços, dizendo que Sheila estava grávida, que se ele fosse preso perderia tudo, o emprego, o bebê, a vida que estava tentando construir.
“Você não tem filho, Summer. Você não tem nada a perder. Eu tenho.”
Palavras que na hora pareceram amor de irmã. Hoje, ecoavam como uma facada.
Eu assumi a culpa. Disse à polícia que tinha sido eu quem pegou o dinheiro, sozinha, sem ajuda de ninguém.
O que ninguém sabia — nem minha família, nem Austin — era que, antes de ir até a delegacia, eu tinha ligado meu celular velho e gravado ele confessando tudo, chorando, implorando.
Eu nunca tive intenção de usar aquilo contra ele. Guardei só como um seguro, escondido, sem nem saber exatamente por quê.
Antes de ser levada, deixei uma caixa com pertences pessoais aos cuidados do Seu Ferreira — coisas que não confiava a mais ninguém da minha família.
Aquele celular estava dentro dela.
Levantei da cama, o coração batendo forte, e desci as escadas correndo até a sala onde o Seu Ferreira ainda assistia televisão.
“Seu Ferreira, a caixa que eu deixei com o senhor… ainda está aqui?”
Ele me olhou surpreso, mas assentiu devagar.
“Está guardada no depósito. Nunca toquei nela.”
Ele me levou até os fundos da loja, entre rolos de tecido empoeirados, e apontou para uma caixa de papelão selada com fita já amarelada pelo tempo.
Abri com as mãos tremendo.
Lá dentro, embaixo de fotos antigas e um caderno de desenhos, estava meu celular velho, a tela rachada, completamente sem bateria.
Fiquei olhando para aquele aparelho como se ele guardasse a resposta pra tudo que aconteceu naquela casa hoje.
A pergunta que me perseguiu a noite toda foi só uma: será que aquela gravação ainda existia?
