“Eu me recuso a dividir uma casa com uma ex-presidiária.”

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Chapter 5

Duas semanas se passaram entre reuniões no escritório do Doutor Renato e conversas tensas mediadas por ele com minha família.

Eu não queria ver Austin preso. Nunca quis, nem quando descobri toda a verdade.

Mas eu também não ia mais aceitar ser apagada da minha própria história.

O Doutor Renato conseguiu provar, com a gravação e com a perícia na assinatura, que a procuração era falsa.

Diante das provas, meu pai e minha mãe não tiveram escolha a não ser assinar um acordo revertendo a transferência da propriedade.

A casa passou a ter meu nome de volta como coproprietária, junto com Austin, exatamente como deveria ter sido desde o início, considerando tudo que ajudei a pagar ao longo dos anos.

Optei por não seguir com nenhuma acusação criminal contra meu irmão pelo furto original. Isso era entre ele e o Seu Ferreira, que também escolheu não abrir um processo, dizendo que já tinha perdido tempo demais guardando rancor.

Mas eu deixei claro, diante de toda a família reunida no escritório do advogado, que aquela seria a última vez que eu permitiria que decidissem minha vida por mim.

Sheila não disse muita coisa durante as reuniões. Fiquei sabendo, semanas depois, através de uma vizinha, que ela e Austin estavam passando por um momento difícil no casamento, que a verdade que veio à tona tinha aberto rachaduras que já existiam havia tempo.

Não senti alegria com isso. Só um cansaço profundo de tanta coisa quebrada.

Minha mãe tentou se aproximar de mim várias vezes depois daquele dia. Numa tarde, ela apareceu na loja do Seu Ferreira, os olhos vermelhos.

“Eu sei que errei, Summer. Eu deixei o medo de perder o Austin me cegar pra o que estava fazendo com você.”

Eu a ouvi em silêncio, sem interromper.

“Eu não peço que esqueça. Só peço uma chance de tentar consertar, aos poucos.”

Não prometi nada naquele dia. Mas também não fechei a porta completamente.

Com o dinheiro da venda da minha parte da casa, decidi não voltar a morar lá. Muita coisa tinha sido destruída para eu simplesmente fingir que podia voltar à rotina de antes.

Aluguei um apartamento pequeno, simples, mas que era só meu, sem nenhuma sombra do passado nas paredes.

O Seu Ferreira me ofereceu meu antigo posto na loja de volta, e dessa vez, além de vendedora, comecei a ajudar ele com a parte financeira do negócio, algo que sempre tive jeito, mas nunca tive a chance de mostrar.

Aos poucos, comecei a costurar de novo, retomando o hobby que tinha antes de tudo acontecer, numa máquina nova que comprei com o próprio salário.

Austin apareceu na loja um mês depois, sem avisar. Ficou parado na porta por um tempo antes de criar coragem para entrar.

“Eu não vim pedir desculpa de novo,” ele disse. “Vim perguntar se, algum dia, a gente pode reconstruir alguma coisa. Do jeito que der.”

Olhei para ele, meu irmão, o menino que eu ainda amava em algum lugar por trás de toda a dor que ele tinha me causado.

“Um dia de cada vez, Austin. Sem mentira. Sem me pedir pra sumir de novo.”

Ele assentiu, os olhos cheios de lágrimas, e por um instante, foi como se eu visse de novo o garoto que chorou nos meus braços tanto tempo atrás, antes de tudo dar errado.

Não sei se um dia voltaremos a ser a família que fomos. Talvez isso nem exista mais.

Mas aprendi que reconstruir a própria vida, tijolo por tijolo, longe de quem só sabe te diminuir, também é uma forma de vencer.

E você, já passou por um momento em que precisou escolher entre proteger quem ama e proteger a própria verdade?

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